Moto e Mochila Brasil: Quase morte na BR 319

Meus amigos, vou relatar a vocês os dias mais difíceis desta minha expedição até agora. Vou adiar os relatos de Manaus e Presidente Figueiredo para atender a ansiedade de quem viu o que vivi nestes últimos dias e falar sobre minha jornada pela BR 319

Em 12 meses de viagem, eu já tinha enfrentado estradas muito ruins e situações adversas, mas nada como esta experiência.

As fotos que acompanham este relato não ilustram 1% da dificuldade que vivi, pois eu não tinha a menor condição de sacar o celular ou câmera para gravar imagens ou fazer vídeos. Fiz isso no começo e no fim, mas durante o ”meião”, que é o grande desafio, fiquei mais preocupado em me manter são e vivo. Mesmo se eu lembrasse da intenção, eu não poderia fazer, pois eu não tinha um espaço no corpo livre da lama que pudesse usar para acessar e manusear os equipamentos.

Eu já sabia que a BR 319 que liga Manaus a Porto Velho era ruim e que nesta época de chuvas ela é quase intransponível. Tanto que, quando muito, só passam motos leves e caminhonetes 4x4, ambas com pneus adequados.

O diferencial desta estrada estava além do terreno difícil de muito Off Road. Ela corta o estado do Amazonas verticalmente e a mata alta da Floresta Amazônica esconde predadores como as onças pintadas, pardas e negras, sucuris gigantes, jacarés e outros animais que nunca ouvi falar mas que tem suas ameaças. Eles estão sempre a espreita e com fome atacam o que entendem por caça.

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Fora isso, ela é uma rodovia que acumula inúmeras discussões e polêmicas sociais, políticas e econômicas. Construída para viabilizar o acesso entre as capitais ela prometia desenvolvimento para o eixo Porto Velho - Manaus, principalmente para a capital manaura, cujos acessos eram limitados pelas demoradas balsas ou custosas passagens aéreas. Ela era pavimentada e trouxe ocupação e movimentação nos entornos da rodovia, mas o governador do estado achou mais interessante quebrar o asfalto.O pretexto era de que seria construído algo melhor. No entanto, sabe-se que quem mandou quebrar eram os donos das balsas que ligavam as duas cidades. Ou seja, o governante empresário não queria perder o monopólio do transporte e decidiu pelo seu interesse maior, tornando a BR 319 propositalmente intransponível e dificultando a vida de quem dependia da rodovia ao extremo

Era impossível viver ali, pois não chegava comida, água e qualquer outro material para poder permanecer ali. Desde então, a rodovia foi sendo abandonada gradualmente e hoje quase ninguém mora em sua extensão. Em 600 quilômetros de via, existem apenas cerca de cinco vilas com uma a três famílias em cada. Ou seja, além das dificuldades do terreno, dos animais ferozes e famintos, havia também a preocupação com o isolamento e a respectiva falta de comunicação e assistência.

Esta é uma estrada que muitos poucos se atrevem a fazer nesta época do ano, pois a precariedade das estradas e a falta de apoio aumentam as chances dos imprevistos e das emergências. Pois bem, mesmo sabendo de tudo isso eu decidi encarar esta travessia para chegar nos meus próximos destinos. Até me ofereceram embarcar a moto na balsa pelo Rio Madeira de graça, mas eu neguei tendo em vista que minha viagem é de aventura e que este desafio eu tinha que vencer para tornar minha aventura digna de entrar para história. 

Esta experiência começou logo que eu cheguei em Manaus quando eu perguntava e pedia a consultoria dos irmãos que já tinha feito esta estrada e a conheciam bem. Muitos diziam para não ir, pois a bucha era grande. Mas os que importavam, Ediel, Farinha, Galvão e Genghis sempre foram apoiadores desta idéia e me encorajavam a seguir, mesmo com tamanha adversidades. Eu tinha um plano de viagem com paradas estratégicas para descanso, alimentação, compra de gasolina e troca de pneus. Além disso, eu tinha comida, pneus de motocross, gasolina extra e estava preparado para o pior. Mas nada disso funcionou bem. 

DIA 1: Manaus – Centro de Reabilitação
Em 5 de maio, me despedi da Fernanda em Manaus, atravessei a balsa, desembarquei do outro lado do Rio Amazonas e peguei o inicio da BR 319. Abasteci no último posto de gasolina e quando fui usar meu reservatório de gasolina extra descobri que a tampa tinha quebrado e a gasolina ia vazar. Eu tinha que achar outro. Primeiro atraso do dia. Mas não demorei muito e consegui o reservatório com o cara do trator. 

O primeira dilema surgiu: colocar os pneus de motocross já ou esperar até Igapó-Açu? Decidi ir com os lisos mesmo, pois era 80% de asfalto até lá. Mas não podia chover. E choveu. Os 20% se transformaram na primeira grande dificuldade da viagem. A estrada já estava muito lisa e os paralamas acumulando barro ameaçavam quebrar. Tirei o para-lamas e segui. Mais adiante uma moto quebrada e, por dever moral, eu parei para ajudar. O pinhão da moto tinha travado e a corrente pulado para fora da coroa. Pai e filho indignados com a situação da estrada e administração da mesma. Eles não tinham ferramentas e eu ofereci as minhas. Foi o segundo atraso do dia e com mais alguns atoleiros pela frente não consegui chegar no meu 1º destino: Igapó-Açu. 

Era quase noite e vi uma luz no fim da estrada. Ufa, tinha gente! E bastante. Cerca de 20 homens sentados num banco já esperando minha chegada. Era a Comunidade 5 Pães e 2 Peixinhos liderados pela Igreja Evangélica que reabilitava ex-dependentes químicos. Fui dormir ali mesmo. 

Homens com histórias difíceis de vício, crime e redenção buscam no isolamento dali uma chance para sua reabilitação. No jantar, todos muito curiosos com minhas histórias e planos e faziam muitas perguntas e contavam sobre outros viajantes que passavam por ali buscando apoio ou ajuda. Casos engraçados e curiosos, como a do brasileiro que ia a pé até o Peru em busca de sua esposa. Comida, conversa, reza e cama.

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DIA 2: Centro de Reabilitação – Ônibus Abandonado
No outro dia, acordei cedo e me dirigi para Igapo-Açu com pressa de trocar os pneus e vencer mais muitos quilômetros para chegar em Rio Novo. Chegando perto da balsa, um barro liso e a moto deitou. Foi a primeira queda. Vi de longe, dois vultos vindo na direção e esperei para me ajudar. Eram dois adolescentes de bicicleta que vieram pra isso. Eles tinham visto de longe a cena. 

Atravessei a balsa e procurei por um borracheiro, mas ele não estava. Tinha que achar um companheiro para me ajudar nesta troca de pneus o mais rápido possível. Achei um com certa rapidez. Como não éramos experientes, demoramos 2h30m debaixo de sol para terminar a árdua tarefa. No processo, rasgamos a câmara dianteira. Paguei com 1 litro e meio de óleo motor e parti. 

Queria chegar no Rio Novo, mas a estrada começou a ficar horrível. Do jeito que aparece nos noticiários e grupos de WhatsApp pedindo socorro e alertando os outros a não pegar esta estrada. Metros e metros de valas de lama, alagados e muito barro liso. Atolei mais de 3 vezes nos infinitos atoleiros e quando o cansaço bateu eu tive um tombo feio que a moto ficou debaixo da lama. Eu não conseguia tira-la de lá sozinho de jeito nenhum. Ia começar a retirar a bagagem para deixar a moto mais leve, mas vi no horizonte distante um ônibus. Apressado, fui andando até ele, mas chegando perto vi que estava abandonado. Não tinha ninguém. Ouvi um barulho de moto alto mais adiante e fui ver o que era. Graças a Deus eram pessoas. 

Três homens estavam tentando tirar uma L200 de um atoleiro havia horas. Eles iam me ajudar, mas só depois de tirar a caminhonete de lá, o que me preocupava, pois já era fim de tarde. Só conseguiram sair do atoleiro quando chegou o restante do grupo com mais 4 ou 5 caminhonetes.
Demorou muito e já eram 18h30 quando me ajudaram a tirar a moto do atoleiro. 

Estava muito angustiado e preocupado, pois ainda faltavam 60 quilômetros para meu destino do dia. E nas condições da estrada isso seria feito entre três e sei horas. Isso se eu vencesse os todos os atoleiros pelo caminho. A ideia de passar a noite tentando tirar a moto de atoleiros, buracos, cair e ficar a esmo sem luz, sem forças e com animais noturnos à espreita me estressava e muito. 

Estava com muito medo e quase em pânico. Minha salvação era o ônibus abandonado. Fui até ele, mas estava trancado por dentro. Fui tomado novamente pelo medo com a possibilidade de não conseguir entrar nele. Rondei o ônibus, tentei quebrar o vidro, mas voltei para a porta e consegui enfiar minha mão por dentro e ver que o que prendia a porta era uma corda. Peguei o facão e batia como dava até romper a corda e conseguir abrir a porta. Baita alívio

Eu estava coberto de lama dos pés ao cabelo, mas de certa forma extremamente feliz, pois pelo menos iria dormir um pouco menos ameaçado. Dei uma rondada dentro do ônibus pra ver a situação e nem quis abrir muito os compartimentos para não despertar uma possível cobra. Com sorte, só achei muito restos de comidas, roupas e objetos abandonados. Tranquei a porta com uma corda, deitei e dormi fácil até ser acordado com o barulho das mil baratas por todos os cantos que roíam os restos de comida. Ainda faltava duas horas para o amanhecer e tudo que eu consegui fazer era “apreciar” a completa escuridão da floresta, ouvir o som da noite selvagem e agradecer às divindades por estar vivo dentro de um abrigo

DIA 3: Ônibus Abandonado - Rio Novo
O dia amanheceu e eu entrei de roupa e tudo no igarapé ao lado para tirar a lama do corpo, da roupa e da alma. Vi que o ônibus que eu dormi era o mesmo que tinha ficado quebrado por 5 dias, no qual os passageiros passaram fome e sede até serem resgatados pelo exército. Foi notícia regional. Fui saber depois, que isso foi lobby do governo e quem resgatou eles foram os moradores locais junto com a cia de ônibus.

Revisei toda minha bagagem e deixei tudo que não era tão necessário lá mesmo. Comida, celular quebrado para ladrão levar, roupas sujas, utensílios de cozinha etc. Parti de lá 6 da manhã e passei por muita lama, sustos, quase quedas e atoleiros. E vários deles, eu ficava preso. Para cada atoleiro, o procedimento ia de tirar toda a bagagem, tombar a moto para os lados, arrastar a moto deitada para fora dos buracos, achar e colocar pedras ou pedaço de madeira embaixo da roda, cortar giro do motor até conseguir sair do prego. Isso durava de 30 minutos a 2 horas do dia e cansava muito, principalmente a parte mental. Pois minava meu otimismo e esperança de levar aquela viagem adiante

Quantas barreiras desta ainda eu iria encontrar pelo caminho? Eu ia conseguir transpor? Com que dificuldade? Não sabia o que tinha pela frente e isso era muito estressante 

Depois de 40 quilômetros destas surpresas, um grande atoleiro apareceu e tinha que passar pelo trilho que dava, apoiando o pé na lama. Em um dado momento, a lama prendeu e chupou meu pé, a moto desgovernou e caímos. Eu fiquei com o pé direito preso na lama com a moto por cima de mim. Fiquei deitado na lama por uns minutos lutando para tirar o pé da lama e sair debaixo da moto numa posição muito incômoda e dolorosa

Num esforço brutal consegui me livrar e sair dali, mas a moto estava dentro de uma vala de lama de mais de meio metro. Seu lado esquerdo ficou completamente enterrado na lama, que fazia muita pressão prendendo a moto por baixo. Eu não conseguia achar pegada para tentar ergue-la. Tentei muito, mas não consegui mover um dedo da moto. Comecei a ficar extremamente preocupado. Fui tirar as bagagens para aliviar o peso, mas o alforge da esquerda estava impossível de alcançar, pois estava dentro da lama e preso embaixo da moto. Tirei o da direita e, quando fui tirar o baú central, vi que sua fechadura estava dentro da lama também. 

Na tentativa de encontrar a fechadura, quebrei a chave do baú. Fiquei paralisado por minutos com a mente totalmente inoperante. Uma eternidade se passou e eu estava de pé totalmente sem possibilidade de reagir a situação. Eu não ia conseguir sair dali sozinho. Eram 9 horas da manhã e sabia que a próxima vila estava entre 20 e 30 quilômetros de distância. E isso era a única variável favorável. 

Sem pensar muito, tomei uma decisão muito difícil: abandonei a moto, escondi tudo que estava solto no mato e comecei a andar. Peguei apenas uma toalha para me proteger do sol, um facão e dois litros de água. Toda minha comida estava dentro do baú inacessível. 

Andei muito, debaixo de um sol muito forte e ouvindo barulho de algum animal pesado me seguindo pela mata. Folhas e matos se mexiam e galhos iam se quebrando ao meu lado conforme eu avançava. Eu cheguei a ver pata de onça na lama e pareciam recentes. Eu estava no modo sobrevivência "MODE ON" e quando um barulho no mato surgiu e apareceu um bicho grande na minha frente instintivamente eu gritei, peguei a toalha, abri e a bati para assustar. Agora parece bobo, mas na hora foi minha reação. Era uma ariranha e ela realmente se assustou e saiu correndo, atravessou a pista e mergulhou no rio. Pude vê-la me seguindo com o olhar de dentro da água. 

Horas de caminhadas me deram algumas bolhas e calos nos pés. Minha pele estava queimada e minhas mãos já estavam cortadas com o manuseio da moto nos atoleiros, mas eu não podia diminuir o passo. Tinha que chegar na vila antes do anoitecer. Nem lembrei da fome ou pensei em parar para descansar. Queria chegar logo. 

Quando passava por igarapé ou rio eu entrava pra me refrescar e tomar água. Sempre imaginando a cena de uma sucuri me agarrando, estrangulando e me engolindo vivo. Eu temia pela minha integridade física e mental

Depois de 12 quilômetros de marcha, avistei um caminhão no meio da pista. Apertei o passo e vi o maior atoleiro da minha vida e uma F-4000 dentro dele. Dois homens estavam sentados à beira da pista visivelmente abalados e cansados. Estavam há horas ali sem esperanças de sair.
Eu, em contrapartida, suspirei fundo aliviado por ter encontrado pessoas depois de quatro horas de caminhada. 

Pelo menos, morrer de fome, sede ou dormir a esmo na floresta eu não iria aquele dia. Mas eles me disseram que a vila estava “perto” a cerca de 8 quilômetros dali. Continuei minha peregrinação até encontrar uma casa em construção e uma família descansando na sombra. Um homem, dois jovens, uma senhora, uma mulher e quatro crianças. Eram cerca de 3 horas da tarde. Pedi licença, me apresentei e contei minha história. Trinta minutos de lamentações e um café, o homem da família, Paulo, me ofereceu ajuda para levantar a moto. Não sabia como agradecer.

Enquanto ele ia buscar sua motinha, almocei e um dos jovens me presenteou com uma unha de onça. Paulo chegou e fomos resgatar minha moto que estava a 20 quilômetros de distância. Quando tiramos ela dali, vi que tinha vazado muita gasolina. Agora eu só tinha metade de um tanque e mais uns 2 litros de gasolina extra, ou seja muito pouco para o que ainda tinha pela frente. Mais esta adversidade vinha para somar ao desafio. 

Na hora de montar a bagagem na moto, eu nem quis saber e abandonei meus dois pneus originais sobressalentes lá mesmo. Alguém iria ganhar um belo presente em breve. 

De volta à vila, Paulo me direcionou para casa de seu irmão Raimundo, que tem um restaurante e ponto de apoio para viageiros. Expliquei minha situação à ele que prontamente me deixou armar a rede ali. Tomei banho, tirei todas as minhas coisas da moto para lavar, jantei e fiquei ali vazando horas de conversas e pensamentos acumulados pelos 20 quilômetros de caminhada. 

Aqui cabe a epifania desta odisseia.

Quando você abandona tudo o que tem, como moto, roupas, equipamentos e tem que caminhar sob um sol de 35 graus, cercado de animais perigosos, cheio de machucados sem garantias de encontrar ajuda e ainda com possibilidade de passar a noite perdido na floresta, você teme pela sua vida e começa a pensar no pior. Os níveis de stress chegam ao extremo e ideias perturbadoras surgem, coisas aparecem do nada, você fala sozinho e fica à beira da loucura. Sem exageros, eu acreditava que poderia morrer ali a qualquer momento. 

Eu estava disposto a deixar moto e tudo que eu tinha por lá mesmo. Tudo que eu queria era sair dali vivo. E, mesmo, que eu conseguisse passar com a moto, prometi a mim mesmo que quando chegasse na cidade, iria trocar a Tenere por uma Lander até mesmo Honda Bros e jogar metade das minhas bagagens fora. 

Eu cheguei no meu limite mental, físico, mas também atingi um nível espiritual elevado para conseguir me manter calmo e seguir firme nesta caminhada. Dali para frente eu sabia que seria outra pessoa e minha viagem também não seria a mesma. 

DIA 4: Rio Novo e Trollers “não passarão”
Acordei na rede do restaurante já refletindo os próximos passos. Eu só tinha uma certeza: eu não iria sair dali sozinho. Iria esperar nem que fosse um mês pra alguém passar por aquela estrada na direção que eu precisava. 

Eu estava conformado em esperar, então, me envolvia com as atividades dos locais para passar o tempo. Comi junto, conversei com as crianças, ajudei na borracharia, fui pescar e até vi uma caçada na selva. Nesta mesma manhã, um caminhão de peixe passou em direção ao atoleiro gigante onde estava a F-4000. Ciente do atoleiro gigante mais adiante, os caminhoneiros teimosamente seguiram viagem. Seria mais um carro para trancar a pista e não deixar ninguém passar por ali.

No meio desta tarde, dois Trollers do DNIT passaram na direção oposta ao meu destino e eu corri para falar com eles. Recebi a incrível notícia de que eles iriam até Careiro e no outro dia voltariam para Humaitá, passando por ali. Já avisei que iria seguir com eles. 

Às 18h os dois Trollers voltaram quebrados sem conseguir vencer o atoleiro gigante. Um vazando óleo do freio e outro sem embreagem.
Eu tinha 30 minutos pra armar toda minha bagagem na moto se eu quisesse acompanhar os Trollers de volta. O Troller verde já tinha partido. 

Às 19h, eu o Troller Amarelo partimos e pegamos a BR 319 à noite. O rapaz do Troller ia rápido demais para não ficar nos atoleiros e eu não conseguia acompanhar na mesma velocidade devido à lama lisa, aos buracos, atoleiros e a falta de luz que me impedia de ver estes obstáculos adiante, pois os faróis da moto estavam tampados de lama. 

Que sufoco, que pressão, que angústia pilotar naquela estrada à noite! 

Durante o trajeto, eu caí uma vez e vivi uma experiência bem dramática. Em uma das pontes, o nível da pista e o da ponte tinha mais cerca de 60 cm de diferença. E o pior é que não dava pra ver, pois ela estava coberta de lama e água. O pneu dianteiro bateu na cabeceira e a moto quase caiu da ponte. Não conseguia subir na ponte de jeito nenhum e, a esta hora, o Troller estava muito à frente e não tinha visto minha situação. Eu estava preso na cabeceira da ponte em completa escuridão a ponto de qualquer movimento mais brusco despencar para baixo no rio. O pior era que eu não podia esperar muito nem desligar a moto, pois o breu era total e era neste cenário que a onça aparecia para comer os mal afortunados. 

O pânico tomou conta, mas eu tinha que sair dali sozinho e rápido. Tentava com todas as força sair dali, mas não conseguia de jeito nenhum. Dava vontade de chorar.  Depois de muita luta, consegui empinar a moto e colocar a roda dianteira na ponte, mas o restante da moto não subia, pois o motor batia na cabeceira da ponte e impedia a roda traseira de fazer o serviço. 

Num último esforço, fiz uma mágica e consegui subir os dois pneus na ponte. Puxei o máximo a moto para trás até onde meu pé alcançava o chão, acelerei, pulei na moto, empinei e fui pra cima da ponte. Subi, mas ainda não venci a ponte. A madeira da ponte estava coberta de lama e muito lisa. A moto escorregou a ponto de tombar. Tirei forças do além para não deixar ela cair completamente e consegui mantê-la em pé. Ela ficou com uma roda no trilho de madeira e ou a outra nas ripas atravessadas. Com muita calma consegui endireitar a moto e sair da ponte. Esse momento durou uns 50 minutos, mas pareceu a madrugada toda.  O Troller voltou e me ajudou com seus faróis a achar meu capacete que eu tinha perdido nesta missão. 

Dali, seguimos mais 40 quilômetros até pararmos num canteiro de obras do DNIT, onde seria nossa pernoite. Eu tremendo de alivio agradeci do fundo da alma que iria dormir vivo aquela noite. No total, foram 100 quilômetros de BR 319 feitas à noite. Jantamos e os peões arrumaram um colchão pra mim, não sem antes expulsar uma aranha que estava dormindo nele. 

DIA 5: Realidade – Humaitá
Antes das sete da manhã, já estávamos na estrada, desta vez eu na frente do Troller para não ficar no meio do caminho sem apoio. O Troller estava lotado, pois além dos dois engenheiros do DNIT tinha outro trabalhador das obras que estava doente. Mas ainda assim, consegui embarcar meus dois alforges laterais no mini porta-malas do carro e aliviar o peso da moto. 

A tocada da viagem e a maleabilidade da moto sem bagagens é completamente outra. Eu ia leve e tinha muita estabilidade, nem precisavam reduzir a velocidade nem por o pé no chão quando os atoleiros chegavam. Tínhamos 250 quilômetros até chegar em Humaitá. Passamos pelo Gaúcho, Catarinos e chegamos na Vila Realidade às 14 horas sem grandes dificuldades, apesar das condições horríveis da estrada. 

Almoçamos e foi lá que tive comunicação pela primeira vez em cinco dias desde que saí de Manaus. Foi aí que descobri que estava famoso, pois minha família tinha acionado polícia e vários motociclistas para saber sobre meu sumiço. A foto tirada pelos jipeiros no 2º dia de mim caído na lama tinha rodado vários grupos de WhatsApp da região e muitos estavam atentos e noticiando sobre minhas passagens. Tanto que quando postei minha foto falando que estava bem, todos já sabiam disso. 

Enchi o tanque e voltamos pra estrada. Os atoleiros acabaram em Realidade, mas a estrada que seguia era tão ruim quanto a lama. Asfalto quebrado com muitos buracos e sob chuva pesada. Faltando 30 km o pneu dianteiro furou e tive que ir na maciota e parando para encher manualmente o pneu até chegar em Humaitá. Eu ainda não tinha onde passar a noite em Humaitá e o Rodrigo, o piloto do Troller, me ofereceu sua casa como apoio. Aceitei com facilidade e felicidade

Dentro de sua casa, pude declarar que eu tinha vencido a BR 319 com grandes honras, pois, segundo os irmãos motocilcistas, eu tinha encarado uma das piores rodovias do Brasil nas piores condições possíveis e com a moto carregada. Recebi várias felicitações, congratulações e mensagens de honrarias de muita gente guerreira, o que me deixou mais orgulhoso. Tanto que brotavam mensagens de pessoas que nem conhecia, convites para grupos e apoio de todo canto do país. 

O mesmo cara que me deu os pneus de motocross, o Adão Cross, conseguiu agilizar uma revisão para a moto na Canopus Honda de Humaitá. O Peter seria o contato lá dentro. Além da troca de óleo, o Peter me presenteou com um par de pneus para estrada, colou minhas câmaras de ar e fez toda correria para mim. 

Neste dia eu ainda não tinha dormido, mas apenas mencionando o fato para um amigo de Manaus, recebi a ligação de motociclista desta cidade me indicando seu primo como apoio em Humaitá. Era o Júlio, um dançarino e empreendedor vivaz do eixo Manaus – Humaitá. Mais um apareceu, o Minotauro, motociclista que já rodou muito pela América do Sul e me deu várias dicas enquanto proseávamos na padaria da cidade naquela noite de 10 de Maio. 

Depois dali, segui para a casa do Júlio, onde teria a última noite de sono deste maior desafio em duas rodas até agora. 

Aprendi muita coisa neste trajeto e a principal dela foi conhecer meu limite e amar ainda mais as pessoas, principalmente a família e verdadeiros amigos. Este trecho será um grande dosador para os próximos desafios da minha viagem e com ele saberei o que sou capaz ou não. 

Por último, quero dizer que sou eternamente grato ao Papai Noel e seus amigos jipeiros que me tiraram do poço de lama, ao Paulo, Raimundo e suas famílias que me acomodaram e alimentaram durantes estes dias na mata, ao Rodrigo que me acompanhou na última parte da travessia, ao Adâo Cross e Peter da Honda que me deram a manutenção na moto e fizeram as correrias para mim, ao Wellington de Manaus e seu primo Júlio que me deram abrigo em Humaitá e ao Minotauro que também ofereceu ajuda. Sem vocês, eu não estaria aqui contando esta história. 

Perdas Materiais: Retrovisor, cantil, talheres, viagra da Amazônia, paralama, par de pneus , câmara de ar, duas camisetas, corda, chinelo, celular do ladrão; 

Danos corporais: Feridas no pé, cortes nas mãos, pé torcido

Ameaças: Pata de onça, cobras, ariranha, araras, macacos, mosquito da malária; 

Pernoites: Centro de reabilitação de dependentes químicos, ônibus abandonado, restaurante Rio Novo, canteiro de obras . 

Quilômetros: não sei, mais de 600 (parei de contar no meio) 

Combustível: não sei, pois perdi 2 litros e mais meio tanque quando a moto tombou. Mas acredito que tenha sido consumido pelo menos 24 litros de Careiro até Humaitá.

Por Danilo Couto

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Fotos: Arquivo Pessoal



Fonte:
Equipe MOTO.com.br




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