De moto pelas Américas, parte 2

Confira a segunda e última parte da matéria 'de Moto Pelas Américas', do aventureiro e escritor Wilton Rogério de Almeida:

Por Fredy

No Panamá visitei o complexo do Canal de Panamá, que faz a ligação entre os oceanos Atlântico e Pacifico. Diante de tão grandiosa obra, feita a custa de muitas vidas, chego a pensar em como há força para melhorarmos a condição de vida no planeta. Em Colón um pouco de música, cerveja e o modo caribenho de viver.

Colômbia é um país de incontáveis belezas. Zipaquirá, a catedral de sal é uma visita imperdível para quem vai a Bogotá. Mais ao sul, próximo a Ipiales, uma das igrejas mais impressionantes que já vi, senão por seu tamanho, mas pela ousadia de sua construção, já que foi literalmente apoiada nas duas paredes de um vale. Trata-se da Catedral de Las Lajas.

Equador foi outro país que eu poderia classificar como dos mais hospitaleiros. Na cidade de Quito passa a linha do Equador, que divide o planeta em dois hemisférios: norte e sul. Ali conheci o senhor Humberto Vera, historiador que já esteve em todos os monumentos à linha do Equador, em todo o planeta. Aliás, foi ele o responsável pela construção do monumento que existe em Quito. Foram várias horas de bom bate papo e troca de informações e experiências.

Em Quevedo não posso deixar de citar a hospitalidade do povo, além do melhor hotel de todo percurso, o hotel Internacional que, por apenas 22 dólares, oferece piscina olímpica, quarto enorme, banheira grande, restaurante, bar, boate, garagem, tudo que um grande hotel pode oferecer.

No Peru o agente da aduana disse que só daria permissão para que eu permanecesse no país durante sete dias. Depois de eu pedir um pouco mais ele respondeu: "- Vocês nos meteram sete e por isso agora somente darei sete dias..." e sorriu. Foi aí que percebi que ele estava se referindo a uma partida que tinha ocorrido alguns dias antes, quanto o Brasil derrotou o Peru por 7 a 0. No final ele me deu 90 dias de visto.

Subindo a cordilheira, desde Arequipa, a temperatura variou de 40º C até 0º C em apenas quatro horas e meia. Mais tarde, neste mesmo dia, a temperatura chegou a -10º C, o que fez um total de 50 graus de variação. Ufa, haja frio... Nesta noite a solução foi dormir na casa de uma família andina de origem quéchua. A senhora preparou um frango ensopado e muito mate de coca, o que valeu para dar uma esquentadinha. O mate de coca é utilizado para equilibrar as pressões interna e externa no corpo e para melhorar o mal estar provocado pelo soroche (o mal das alturas), que assola quem se aventura em grandes altitudes. O quarto, único disponível, não fechava a porta direito, além de ter um buraco enorme no teto, o que fazia o vento entrar e sair durante toda noite. O lado bom foi poder olhar a noite andina dos 4.500 metros de altitude, bem pertinho das estrelas, mesmo pensando que o frio pudesse me vencer. Creio ter sido a noite mais longa de minha vida.

Macchu Picchu e o Vale Sagrado dos Incas merecem um capítulo a parte em virtude da história que se esconde por detrás de cada uma daquelas pedras. Vale dizer que a importância das ruínas de Macchu Picchu se deve ao fato de esta manter-se 80% ainda preservada.

De volta à estrada, Puno e o Lago Titicaca, o mais alto lago navegável do planeta, onde pequenas embarcações de junco, os Totora, cruzam as águas rumo às ilhas do Sol e da Lua.

Na Bolívia, a capital folclórica das Américas, estradas difíceis foram uma constante. Logo de cara um atoleiro de areia apresentava algumas bifurcações que, caso fosse escolhido o lado errado, só depois de uns 200 ou 250 metros, dava para perceber devido à presença de uma barreira de mata à frente. E toca a voltar tudo no areião.

La Paz é uma cidade linda, rodeada por picos nevados cujo maior é o Ilimani. Ali consegui comer algo tão típico em Sampa e tão difícil nesta viagem, um hot dog. É, parece esquisito, mas as coisas mais simples podem nos provocar saudades. Em Santa Cruz de La Sierra, a opção foi o Trem da Morte. Mal sabia eu que ao descer em Roboré no dia seguinte, levaria mais dois dias para percorrer somente 75 Km, devido a um atoleiro intenso de areia chamado fesh-fesh. É o lado boliviano de nosso pantanal.

No primeiro dia, após 32 Km, cheguei a Águas Calientes. Como o próprio nome sugere, ali passa um rio de água quente onde as pessoas entram para se banhar e relaxar. O dono de uma casa tinha acabado de abater um boi e aproveitei para fazer uma boa e barata refeição. Ali fiquei no hotel mais natural de todo o percurso, ou seja, fiquei tão próximo da natureza quanto qualquer pessoa pode, ou sonha, ficar. Em outras palavras, parei a motocicleta e dormi ao lado dela.

No dia seguinte rodei 45 Km até um povoado de nome Naranjo, sempre enfrentando o tal do fesh-fesh. A chuva veio e a única saída era esperar um novo trem que viria somente no outro dia. Dormi na estação próximo à moto. O senhor Juan, que cuidava do local, acabou me arranjando uma rede e disse para que eu dormisse dentro da estação e que ele a deixaria aberta para o caso de eu querer sair durante a noite. Neste momento eu pensei comigo: "Mas sair para aonde?"

Peguei o trem e vim agarrado em uma coluna de ferro até Yacuse, de onde parti rumo a Corumbá, já no Brasil. De Corumbá (MS) até São Paulo foram 1500 Km de quase relaxamento, com boas estradas e pouco trânsito. Só próximo a São Paulo é que a quantidade de veículos aumentou. Em casa havia uma placa onde eu pude ler: "Welcome back from Alaska".
Exausto, mas cheio de histórias na bagagem, percebi mais uma vez que viver vale a pena. A festa varou a madrugada.

Wilton Rogério de Almeida - wraventura@uol.com.br

Fonte:
Equipe MOTO.com.br

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