De moto pelas Américas

O MOTO.com.br publica nesta quarta-feira a primeira parte da matéria feita por Wilton Rogério de Almeida, em uma de suas viagens de moto pe

Por Fredy

Após exaustivo planejamento para estudo e elaboração do roteiro, parti rumo a um antigo sonho: percorrer as três Américas, desde o Círculo Polar Ártico no Alasca até São Paulo, onde vivo. Tudo de motocicleta.

Escolhi a cidade de Los Angeles, Califórnia, para o início desta aventura. De lá fui a Las Vegas, depois ao árido Vale da Morte. Este nome se deve ao fato de o local estar a 70 metros abaixo do nível do mar e mesmo assim não ter água. Nas montanhas Rochosas o cenário vai variando entre o belo e o incrível com tamanha velocidade que por muitas vezes nem a neve caindo me atrapalhava.

Já no Canadá, percorri os parques de Banff e Jasper. São aproximadamente 290 Km de pura natureza em uma das rodovias mais belas do planeta. Ao norte da cidade de Jasper iniciou-se um dos momentos mais esperados da viagem: o encontro com ursos em seu habitat natural. O risco de fotografar animais selvagens é sempre um item que devemos levar em consideração, porém com cautela e uma dose de sorte, foi possível conseguir realizar estas fotografias.

Na medida em que eu rumava ao norte, ao Alasca, os dias iam ficando mais frios e mais longos. Em determinado dia, próximo a cidade de Iskut, já passava das 22h30 quando percebi que o dia não ia embora e resolvi parar para dormir. A partir da parte norte da província de Yukon, as estradas pavimentadas acabaram e o cascalho solto passou a ser uma constante durante os longos dias. Ao total foram 3200 Km (ida e volta) de estradas ruins, em conserto ou em abandono total. A Alaska Highway é o único meio possível, por terra, de se chegar ou sair do Alasca e no inverno, que lá é demasiado rigoroso, a neve se encarrega de destruir a pavimentação da rodovia.

Chegar ao Alasca foi uma emoção à parte. Após cruzar o Círculo Polar Ártico, virando a bússola, o destino estava distante: São Paulo-Brasil. Não sem antes atravessar as regiões da Am. Central e do Sul, sobretudo com a preocupação de encontrar os guerrilheiros em algumas partes.

Atravessei o México pela região mais histórica na tentativa de saber um pouco mais sobre o país que, ao brasileiro, se faz por demais acolhedor. Cidades como Zacatecas, Chiuahua, Guadalupe, entre outras, não podiam estar fora de meu roteiro.

Na cidade do México, o caos urbano me fez lembrar a superpopulação de minha terra natal. Visitei as ruínas de Teotihuacán, a cidade dos deuses, onde, segundo a lenda, o ano era composto de 360 dias e mais cinco dias sagrados. As crianças nascidas nesses dias teriam a honra de, após 5 ou 6 anos, serem sacrificadas e oferecidas ao Deus sol para que o mesmo não parasse de brilhar e continuasse dando vida aos homens.

Próximo ao Estado de Chiapas, o mais pobre do país, um frentista de posto de gasolina alertou-me: "Brasileiro, você é louco? Aqui eles atiram de verdade, depois é que perguntam alguma coisa. Vá por outro caminho se deseja continuar vivo...".

Na Guatemala fui conhecer as ruínas de Tikal, um exemplo de preservação da civilização Maia. Depois El Salvador e Honduras. Muitos haviam falado dos riscos destes países da América Central, mas foi ali que encontrei um dos povos mais hospitaleiros e acolhedores de todo o percurso. Algumas passagens ficaram gravadas para sempre em minha memória como gente simples e boa.

Um dos momentos mais tensos desta viagem aconteceu na Nicarágua, onde fui abordado por guerrilheiros. O pior foi que eu estava em um trecho de rodovia onde há mais de 40 minutos eu não via nenhuma alma viva. A solidão fez daquele momento terrível. Depois de alguns minutos sendo só observado, no mais perfeito silêncio, o que aumentava meu medo, um deles perguntou de onde eu era. Foi minha salvação já que, quando respondi "brasileiro", ele logo falou de Romário, Bebeto, Ronaldo, Futebol e Carnaval. Graças a Deus. Depois que saí dali, — ou seja, fui liberado —, minhas pernas começaram a tremer amolecidas.

Continua amanhã...

Wilton Rogério de Almeida - wraventura@uol.com.br

Fonte:
Equipe MOTO.com.br

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