Um novo roteiro para o Dakar

Confira o artigo de Klever Kolberg, veterano do rali e diretor comercial da equipe Petrobras.

Por Leandro Alvares

O cancelamento da 30ª edição do Rally Dakar devido às ameaças de ataques terroristas me leva a estudar alternativas de roteiro para o futuro da prova. Para limitar a criatividade, eu acho que inicialmente a prova deveria tentar manter um percurso próximo do original, largando da Europa e chegando a capital do Senegal, Dakar, evitando as áreas de risco.

Na verdade, isso já vem sendo feito pela organização. Nas primeiras 10 edições do Dakar, de 1979 a 1988, o desembarque na África sempre aconteceu em território Argelino, na capital Alger. Inclusive o nome oficial da prova era Rally Paris-Alger-Dakar. Devido ao crescimento da insegurança no país, o roteiro mudou para a Tunísia e Líbia.

Uma derradeira tentativa de voltar à Argélia aconteceu em 1993, já que a região tem ótimas condições geográficas para a prática deste esporte. Mas foi um grande risco, um roteiro de etapa foi modificado as pressas e nunca mais o rali colocou seus pés por lá.

Entrando na África pela Argélia ou pela Líbia, para se chegar ao Senegal se segue em direção ao sul, onde encontramos os territórios do Chade, Níger, Mali e Mauritânia.

Em 1991, às vésperas do dia D, ultimato do governo americano para Saddam Hussein tirar suas tropas do invadido Kuwait, a caravana do rali atravessava o Mali, quando o co-piloto de um caminhão de apoio foi assassinado a tiros, numa área onde havia conflito civil, apesar das garantias de segurança oferecidas pelas autoridades locais.

A resposta da organização foi fazer um trajeto completamente diferente, onde o destino deixou de ser Dakar, e a edição de 1992 terminou na Cidade do Cabo, África do Sul. Apesar da medida, durante a travessia do Chade, a prova foi ameaçada por rebeldes.

Uma etapa foi cancelada e, para contornar, improvisado um desvio que foi duramente criticado pelos competidores, já que não houve qualquer escolta, nem ao menos um roteiro claro. Já antes da largada, estava prevista uma ponte aérea/naval, que levou competidores e máquinas, dos Camarões para Angola, evitando o Congo, onde o momento era de conflito civil.

Para 1997, devido a questões políticas, a organização abandona a Líbia. Um roteiro novo, largando de Dakar, indo até o Níger, na cidade de Agadez e voltando a Dakar. Infelizmente, num evento totalmente desligado da prova, duas pessoas morrem num conflito entre tribos touaregs e o exército local. A organização muda o trajeto de uma etapa, evitando a área de risco.

O Níger já era tradicional no roteiro, mas este conflito entre o governo e tribos touaregs, também afastaram o Dakar daquele território, onde está o famoso deserto do Ténérré, que deu nome a um modelo das motos Yamaha que disputavam a prova.

Também se fez uma tentativa de voltar para lá, em 2000, na prova que largou de Dakar e chegou à cidade do Cairo, ao lado das pirâmides do Egito, roteiro novo para marcar a virada do milênio. Infelizmente a ameaça de um atentado terrorista obrigou a organização a cancelar quatro etapas e investir num gigantesco sistema de ponte aérea, para levar pessoas e equipamentos a salvo, de Niamei, capital do Níger, para Sabha, na Líbia, a 3.000 quilômetros de distância.

A partir de então, o rali passou a utilizar o Marrocos como porta de entrada da África, seguindo para a Mauritânia. Diante das atualidades, é desnecessário se comentar sobre a Mauritânia. O norte do Marrocos já é mais desenvolvido e turístico, mas ao sul se encontra a região do Saara Ocidental, ainda insegura.

Portanto, percebemos que se forma um cinturão de insegurança isolando a chegada a Dakar por terra. Inicialmente restaria a organização fazer toda a prova no Marrocos ou voltar à Líbia e Egito, que somados resultam numa área muito maior. Já existem provas tanto no Marrocos como no Egito, que fazem parte do calendário mundial.

Alternativas, como a própria Europa, Ásia e até mesmo a América do Sul, neste momento são apenas campos das especulações. Mas não devem ser descartadas. Minha torcida, desde criança, é pelo Brasil.

- Artigo elaborado por Klever Kolberg, veterano do Rally Dakar com 20 participações e atual diretor comercial da equipe Petrobras. 

Pela primeira vez em sua história, o Rally Dakar — famosa competição off-road do planeta — deixou de ser realizado. O cancelamento da edição 2008 deveu-se às ameaças de atentados terroristas na região da Mauritânia, país no qual seriam disputadas oito das 15 etapas do rali.

Os prejuízos pela anulação do evento, segundo a imprensa européia, devem chegar a 26 milhões de euros (cerca de R$ 90 milhões). Isso somente para a ASO, promotora do Rally Dakar.

Fonte:
Equipe MOTO.com.br

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