Diário de um Futuro Motociclista - Parte 2

Terceiro Dia – Aulas 7, 8 e 9
Quarto Dia – Aulas 10, 11 e 12

Roberto Brandão Filho

Quando cheguei ao estacionamento do portão três do parque Ibirapuera, para meu terceiro dia de aula, notei uma coisa de diferente. Tinha mais motos e mais pessoas na “fila de espera”. Apressei-me para falar com meu instrutor e já me sentei na Honda CG 150 na qual estava fazendo aula. Liguei a moto e me juntei aos outros aprendizes.

Formavam-se duas filas, e de dois em dois entrávamos no circuito. Ao meu lado estava uma mulher, que aparentava já ter seus 40 anos ou mais, se esforçando para deixar a moto ligada. Quando a fila andava, ela sem querer deixava a moto morrer. E para ligar novamente? Um sacrifício. As motos de algumas auto escolas estavam em estado lamentável. O instrutor dela estava lá longe, porque a maioria deles tem mais de dois alunos por aula, o que prejudica os que têm maiores dificuldades. Apoiei minha moto no cavalete e ajudei a simpática senhora a ligar sua “motoca”. Ela me agradeceu, e seguimos em frente.

Quando estava na primeira fileira e já era minha vez, me aprontei para sair na frente da moça, de forma a não atrapalhá-la. Completei uma vez o “8” e quando chegou novamente à metade inicial, sai para as curvas quadradas. Esta parte é uma das mais difíceis para os iniciantes. É onde a maioria das pessoas é reprovada. O equilíbrio nessa parte é fundamental. Meu instrutor me explicou que eu não precisava acelerar a moto nesta etapa, porque a aceleração da moto não deixaria ela morrer, se eu conseguisse manter uma velocidade baixa constante. Esta simulação é para preparar as pessoas para fazer curvas fechadas, uma espécie de direção defensiva. Para mim não foi muito difícil, mas vi que várias pessoas repetiam esse exercício milhares de vezes, sem passar para as outras etapas.

Acabei a seqüência de curvas quadradas e prossegui até o slalom. Para mim, nada de mais, mas até que este é um bom exercício de controle e equilíbrio, já que a distância entre um cone e outro era de aproximadamente dois metros.

Passei sem problemas por esse estágio, mas encontrei um tráfego à minha frente para o próximo passo. O motivo? Um garoto perdeu o controle de sua moto, e a derrubou no chão quando passava pela “prancha”. E cadê o instrutor? Lá trás, no primeiro estágio. Ele deu um pique até onde estávamos para ver se estava tudo bem com seu aluno. Levantou a moto, a colocou de lado, e deu um grito, “VAI”, para o próximo da fila andar.

Na minha vez, parei exatamente a meio metro de distância da parada obrigatória, e avancei para a “prancha”. Fiz a curva para a esquerda, e já sai visualizando o começo da faixa amarela no meio da pista. Não fiz totalmente certo, quase no final da “prancha” eu dei uma saidinha da faixa, o que na hora do exame causaria reprovação na hora. Perguntei ao meu instrutor o que havia feito de errado, e ele me disse que eu não podia entrar na “prancha” olhando para ela. Tinha que olhar ao final dela, como se fosse um corredor entre os carros. Ah, é para isso que serve este exercício então.

Finalizei mais uma vez o percurso todo, e entrei na grande fila novamente. Ao final deste dia, aprendi que no trânsito da nossa cidade você tem que se virar sozinho. Mais 2hs30min de aula, e somente algumas voltas e poucas dicas do meu instrutor, que estava dando aula também para mais duas pessoas. Uma delas não sabia subir na moto, e por isso teve que ter mais atenção.

No dia seguinte, cheguei ao Ibirapuera um pouco mais cedo, por volta das 12hs. Escolhi de propósito a hora do almoço para ver se teria um dia mais produtivo. Estava enganado. Muita gente fazendo aula mesmo assim. Mas eu descobri uma coisa nova. Havia um outro trajeto que os professores faziam para seus alunos com defasagem. Um circuito igual ao do exame, mas um pouco menor, para aproximar aluno – instrutor. Resolvi tentar.

A fila deste circuito era um pouco menor, e contava com várias mulheres. Uma das coisas mais incríveis que vi foi lá. Uma mulher pilotando a moto com um salto DESTE tamanho. Aqueles saltos gigantescos, chamados de “plataforma”. Achei um absurdo deixarem ela fazer aula com esse calçado. Imagine ela, na rua, passando as marchas com um negócio daquele tamanho. Impossível, nem MacGayver faria isso, enquanto eu continuava proibido de tirar as fotos.

Enfim, entrei na fila e esperei minha vez, só de olho na mulher com o salto para ver como se saía. Até que ela foi bem, com os pezinhos de fora da pedaleira para lhe dar mais equilíbrio. Uma cena no mínimo, engraçada.

Completei o percurso rapidamente, só para ver como era, e parti para o circuito dos “avançados”. A fila, muito maior, estava quase invadindo o traçado, e os instrutores tiveram de começar a soltar três alunos por vez, para dar mais dinâmica à coisa. Mas o que adianta três alunos de cada vez se o espaço para treinar não permite isso? Críticas de lado, continuei fazendo o traçado. Primeiro o “8”, depois as curvas curtas e quadradas, depois o slalom entre os cones, e por último passei pela “prancha”, sem problemas. Dessa vez, fiz tudo certo, sai da curva antes da faixa visando seu final, e com todo o equilíbrio do mundo, finalizei mais um dia de aula.

Mas ainda tenho que entender uma coisa. A frota de motos em São Paulo já representa 10% da frota de carros. Como aprenderemos a pilotar uma moto se só temos dois centros de treinamento autorizados pelo DETRAN? Um fica na Zona Oeste e outro na Zona Leste, para uma cidade de quase 40 milhões de habitantes. Será que é por isso que não somos preparados para enfrentar as ruas como deveríamos ser e que há tanta desorganização no trânsito? Outros centros de treinamento, com equipamentos melhores e mais modernos deveriam ser criados. Um abraço e até o fechamento deste diário, na semana que vem, já com a prova final.



Fonte:
Equipe MOTO.com.br




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