Na Estrada: Minha primeira vez

 
Tiago Feliziani

A minha primeira experiência sobre duas rodas foi um fracasso. Em novembro de 1995 eu estava quase repetindo em Matemática. Precisava tirar no mínimo 8 na última prova para passar para o primeiro colegial.

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Nessa época, aos 14 anos, eu queria muito duas coisas: em primeiro, uma mobilete; em segundo, passar de ano em Matemática. Sempre fui muito ruim em Exatas e é provável que os números que acabei de escrever estejam errados. Não me lembro se fui eu ou foi o meu pai que sugeriu uma aposta. Se eu passasse ele me daria a mobilete.

A relação entre pais e filhos na adolescência não costuma ser fácil e comigo não foi diferente. Meu pai foi meu professor de História da quinta série ao terceiro colegial, o que me permitiu estudar em bons colégios, mas a cobrança era enorme. Ele era um excelente professor e todos os alunos o idolatravam. Até hoje, em mercados, na rua ou na farmácia, pessoas das mais variadas idades chegam e dizem “Ô fessor, que saudade”. Eu também idolatrava o meu pai, mas mais do que isso eu o desafiava. Por isso eu queria muito vencer aquela aposta a todo custo.

Por isso, tenho certeza de que todas as minhas tardes trancado no quarto, fazendo contas, resolvendo equações e me dedicando valeram a pena: tirei 8,5. Nunca fiquei tão feliz e orgulhoso. Como o meu pai sempre foi um homem de palavra, no começo de dezembro ele me deu uma mobilete. Era uma Caloi usada, nas cores branca e vermelha.

Fomos de carro buscar a máquina na casa do vendedor. Lá, o cara me mostrou o funcionamento básico e disse que pilotar aquilo era igual andar de bicicleta. Subi na mobilete e meu pai veio me seguindo até chegar em casa. Então ele me deu apenas um aviso: se você cair com essa merda eu não vou te socorrer. Não sei se essas foram as palavras exatas, mas o conteúdo da mensagem era esse. Era dezembro, eu estava de férias e pronto para acelerar por aí.

Mais ou menos.

Depois de quase cair com a minha tia na garupa, escapar por um triz de bater em um Fusca e outras barbeiragens de principiante, enfim comecei a pegar as manhas. A máquina funcionava perfeitamente bem e eu sentia cada vez mais confiança nas minhas habilidades como piloto.

Três e pouco da tarde, 25 de dezembro. Convidei um amigo para ir até uma padaria próxima. Sem camisetas, só de bermudas e óculos de sol, seguíamos tranquilamente por uma grande avenida, curtindo o vento no rosto, conversando. Estávamos devagar e eu pilotava com prudência à direita da via. Não havia nenhuma pressa e nenhum carro ao redor.

Foi quando um Chevette branco, com um casal dentro, se aproximou e encostou ao nosso lado. O motorista nos olhou, não me lembro se falou alguma coisa para a companheira dele ou para nós. De repente, ele jogou o volante para a direita e nos acertou com força, derrubando o meu amigo, a mobilete e eu no asfalto. Ele não parou; eu parei no chão, com a mobilete sobre o meu corpo, o escapamento queimando o meu braço esquerdo.

Não sei dizer o que doía mais: sentir o corpo em carne viva ou ver a mobilete arrebentada e vazando gasolina. Como era feriado e não havia ninguém para pedir ajuda nem testemunhas, o jeito foi empurrar a mobilete de volta para casa, mancando, todo estropiado, e enfrentar a pior parte: encarar o meu pai. Se eu caísse com aquela merda ele não iria me socorrer, ele tinha dito. Meu pai sempre cumpria sua palavra.

Quem me socorreu foi a minha mãe. Ela me colocou dentro do carro e fomos até o posto de saúde mais próximo. Eu estava com raiva do meu pai e com ódio do motorista do Chevette branco. Eu só queria entender o por quê. Acho que foi pura maldade. Como sou ruim com números, não memorizei a placa do Chevette.

Claro que não havia médicos de plantão no posto de saúde no Natal de 1995. Quem me atendeu foi uma enfermeira bem grande. Ela disse para eu ficar calmo porque tinha que limpar as feridas. Para isso, ela me enfiou embaixo de uma torneira de água fria e, com uma esponja cheia de detergente e sem nenhuma delicadeza, começou a esfregar para tirar o asfalto e a sujeira dos machucados. Desmaiei.

Quando acordei, estava com as duas pernas e o braço direito enfaixados, mais uma queimadura no braço esquerdo e escoriações no rosto. Ao chegar em casa, meu pai se manteve firme e não demonstrou qualquer arrependimento por não me socorrer. Será que pelo menos ele tinha se arrependido por ter feito aquela aposta comigo?



Recentemente o meu pai me mandou uma foto daquela prova que me fez passar de ano. Ele a guardou todo esse tempo. As feridas cicatrizaram rápido e em janeiro de 1996 o meu pai me fez trocar a mobilete batida por uma bicicleta. Voltei a pedalar com os amigos do bairro e continuei a apanhar dos números durante todo o colegial.

Já a minha segunda experiência sobre duas rodas foi um fracasso muito maior e tanto o meu pai quanto os advogados me fizeram prometer não contar isso a ninguém.

 

Tiago Feliziani nasceu em 1981 na cidade de Sorocaba/SP. É publicitário, redator, escritor e motociclista, e já caiu de tudo quanto é jeito.


 

 

 

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Fotos: Arquivo Pessoal



Fonte:
Equipe MOTO.com.br




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