Irmão de estrada ou apenas blá-blá-blá?

Comentário de um motonauta vira tema da segunda coluna do motociclista estradeiro.

Por Leandro Alvares

Recebi vários comentários sobre o que escrevi em minha estreia no MOTO.com.br. A maioria foi de elogios (muito obrigado a todos os leitores), mas como nem tudo são rosas, recebi um comentário que dizia: “Perfeito em blá-blá-blá de irmão de estrada... já dá até para montar uma palestra motivacional”.

Claro que levei na brincadeira, mesmo porque cada um tem sua opinião e eu devo respeitar todas. Posso até não concordar, mas respeito à opinião de cada um. Mas depois de ler esse comentário, comecei a pensar sobre o assunto. Na verdade eu já tinha até o título da minha próxima coluna. Ela iria se chamar “Dicas para um viajante solitário”, mas vai ficar para a próxima, daqui a 15 dias.

Pensando sobre o comentário, resolvi escrever a minha opinião pessoal sobre o tema. Sei que muitos podem não concordar com o que vou escrever, mas não podia deixar de registrar isso.

Eu já ouvi alguns falarem que "existem motoqueiros e motociclistas". Na concepção deles, 'motoqueiros' são os que usam motos 'pequenas' e 'motociclistas', os que usam motos 'grandes' (um amigo um dia me disse: “Ué, mas elas são quase todas da mesma altura...”).

Bom, eu penso que existe sim uma diferença, mas não no sentido acima. Para mim, a diferença está no uso da moto. Muitos a usam como instrumento de trabalho e outros como lazer. Basicamente podemos dizer que os que a utilizam como instrumento de trabalho andam mais na cidade, e os que utilizam como lazer, mais na estrada.

Na cidade, temos milhares de 'guerreiros' que usam motos 'pequenas' para garantir seu sustento — e muitas vezes o sustento de suas famílias. São 'guerreiros' porque além do trabalho têm que sobreviver ao trânsito caótico, a motoristas que não os respeitam, a violência, a discriminação e a tantos outros fatores. Seriam esses motoqueiros 'menores' dos que usam a moto como lazer ? Seriam 'menos' por estarem em cima de uma moto de pequena cilindrada ?

Não... porque na estrada somos todos iguais. Todos. Não importa o 'tamanho' da moto, a potência, a cilindrada. Qualquer um que estiver sobre duas rodas numa estrada é igual a qualquer outro. Enfrentamos as mesmas circunstâncias, as mesmas dificuldades, os mesmos perigos e as mesmas emoções. Curtir uma viagem não está relacionado à velocidade final da moto, muito menos à potência. Curtir uma viagem é... é... bom, quem viaja sabe!

Eu não sei você, mas eu viajo e cumprimento a todos os que passam por mim. Qualquer tipo de moto, qualquer cilindrada, qualquer um. Aceno com a mão, dou sinal de luz, abano, balanço a cabeça, planto bananeira... Na estrada, para mim, todos são 'irmãos de estrada', sem distinção nenhuma.

Na cidade claro que é diferente. Mesmo porque estamos sempre na correria, no apuro do trânsito, com a cabeça ocupada, correndo de um lado para o outro — ou como dizem, "correndo atrás da máquina".

Agora o ponto onde quero chegar: você já viu alguma 'classe' tão unida quanto a nossa? Eu não conheço. Não importa onde você estiver e nem de que maneira, se você encontrar outro motoqueiro (ou motociclista, se você prefere assim) você tem um amigo.

E isso não se restringe a motos 'grandes'. Eu já vivi e presenciei isso. Eu paro se uma moto de pequena cilindrada estiver com o pneu furado. Se um motoqueiro com uma 125 estiver precisando de ajuda eu paro. Se vejo uma pessoa na estrada com um capacete na mão eu paro e pergunto o que houve, se precisa de ajuda, etc.

E eu não sou 'o cara' não... isso é geral. Veja por você mesmo. Quantas situações semelhantes você já presenciou? Quantas vezes você chegou a um lugar e viu outro 'irmão de estrada' e já se sentiu mais tranquilo, mais seguro? Ou então foi até ele 'puxar papo', perguntar de onde ele vem, para onde ele vai, como a moto dele está se comportando, qual o melhor caminho, etc.

E em locais mais desertos? Você vê o 'brother' com a moto e pensa "puxa, outro, que bom". Posso estar romantizando um pouco, mas comigo é assim. Já viajei um bocado, conheci um grande número de pessoas, convivi com vários irmãos motociclistas e todos, todos os que conheço agem assim. É uma grande irmandade, uma grande comunidade. São várias tribos, mas todas com algo em comum: a paixão pelas motos.

Quer um exemplo? Na minha primeira viagem ao Uruguai, com minha TDM-850, estava parado num semáforo em Montevidéu. Do meu lado, um EcoSport. O motorista me pergunta “quanto custa essa moto no Brasil?”, e eu noto um sotaque estranho, um espanhol com um  sotaque diferente.

Falo o valor aproximado. Ele ri. Pergunto de onde ele é, ele me diz que é de Montevidéu mesmo. Eu insisto: "Mas você não é uruguaio?", e ele responde que "não, sou americano, do Texas”. No semáforo mesmo ele pergunta se quero tomar um café, digo que sim. Ele me manda seguí-lo.

Vamos até um posto de combustível. Lá ele me conta que é de Dallas-Texas, mas que mora em Quito-Equador e que presta serviços para a GE no Uruguai. E daí? Daí que ele é motociclista e em Quito tem uma empresa que aluga motos para quem quer fazer passeios nos Andes. Ele que me disse uma frase que sempre lembro: “De moto, lado brilhante para cima (tanque) e lado sujo para baixo (escapes/motor) sempre”.

Veja, eu nunca o tinha visto na vida, nem ele a mim. Mas o que atraiu a atenção foi a moto. E depois conversamos um bocado, parte em espanhol, em “portunhol” e em inglês. Se eu estivesse de carro, ou se ele não fosse motociclista, isso teria acontecido? Não, com certeza não.

Bom, não sei em relação a você, mas para mim, todos são 'irmãos de estrada'. E isso não é blá-blá-blá. E sim, eu estou pensando seriamente em montar uma palestra motivacional. O que você pensa sobre tudo isso? Deixe seu comentário!

Obs: Nessa mesma viagem conheci o Roberto, um Uruguaio que mora no Brasil e viaja as Américas de motorhome (obrigado pelo almoço Roberto) e também tive a felicidade de tirar uma foto ao lado de um lindo Mustang vermelho!

Forte abraço e bons caminhos!

Eldinei "P.P." Viana
ppviana@gmail.com
www.viajantesolitario.com.br


Fonte:
Equipe MOTO.com.br

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