Estreia e apresentação de novo estradeiro

''Viajante solitário'' escreverá sobre suas aventuras de moto por diversos países.

Por Leandro Alvares

Sempre gostei de motos e de viajar com elas mais ainda. Bem, acho que devo me apresentar antes de continuar escrevendo. Meu nome é Eldinei Viana, mas muitos amigos me conhecem por "PP" (é, não tem nada a ver com meu nome, eu sei). Tenho 39 anos, moro em Pato Branco (PR) e sou empresário.

Com motos, minha experiência data de 1986, quando tive minha primeira máquina de duas rodas, uma CG 125. De lá para cá passei por vários tipos e modelos. No meu “currículo” consta RX 180, Vespa, DT 200 R, CB 500 Four, Falcon, XT 600, CBX 750 F, CBX 750 Indy, TDM 850 (tive duas), TDM 900, V-Strom e atualmente estou com uma bela Yamaha FJR 1300.

Em termos de viagens, já rodei alguns milhares de quilômetros. Claro que por morar no Sul viajo mais por essas “bandas”, mas já fui algumas vezes a São Paulo, nordeste e viajei algumas vezes para o Uruguai, Argentina e Chile.

Sei que existem muitos motociclistas que têm muito mais quilometragem do que eu — ainda estou na juventude na escala de idade motociclística! Mas tem uma coisa que talvez me diferencie de outros: a maioria das minhas viagens longas e de longa duração eu faço sozinho (ou quase). Isso me deu experiências que provavelmente não teria se viajasse em grupos ou mesmo em duplas.

Viajar sozinho muitas vezes é um desafio. Não que seja algo “uau, o cara é um super herói”, mas sempre que viajo e encontro outros irmãos motociclistas eles me pergutam “cadê o resto do pessoal? onde está o teu grupo?”... Quando conto que viajo sozinho, a maioria deles se espanta. E muitos questionam: “como você faz se acontecer tal coisa? você não se sente só? você não cansa de viajar sozinho?”... e por aí vai.

Viajar em grupo também é muito bom — e vale ressaltar que não tenho nada contra esse tipo de viagem. Eu até faço pequenos passeios em grupos aqui na região. Também algumas viagens curtas, como ir à Curitiba, Florianópolis e outras cidades. Mas para mim essas são viagens curtas, pequenas. As viagens longas e de longa duração, até hoje, sempre fiz sozinho.

Como eu escrevi no início dessa coluna, sou empresário e atuo na direção da empresa. Viajar de moto sozinho me ensina muita coisa que coloco em prática na vida profissional. Pode parecer estranho, mas é isso mesmo. Vou dar um exemplo:

Quando fui ao Uruguai pela segunda vez (sozinho, claro), estava com a V-Strom. Na ida, ainda no Brasil, peguei uma “panela/buraco” enorme. Caramba, que susto levei, pois quase caí. Parei, olhei e “apenas” a roda traseira tinha amassado... e que amassado! Mas continuei tranquilo, pois o pneu estava intacto.

Cheguei a Montevidéu à tardinha, tudo normal. Encontrei um hotel, estacionei a moto e saí de táxi (no Uruguai os táxis são muito baratos). No outro dia meu objetivo era viajar cedo pois queria contornar o País inteiro e tinha poucos dias para fazer isso (lembre-se: era a segunda vez que eu estava viajando de moto pelo Uruguai, então já conhecia uma boa parte do lugar).

No outro dia, cedinho, chego à garagem do hotel, coloco as malas nos baús e saio... aparentemente tudo normal. Ando algumas quadras e noto que a moto está estranha. Paro, olho e vejo o pneu traseiro completamente vazio. O amassado da roda permitiu que o ar escapasse devagar, então o pneu foi murchando até esvaziar completamente.

Montevidéu, capital do Uruguai. Estou tranqüilo né? Aqui deve ter dezenas de lugares para consertar a roda e encher o pneu. Ledo engano. Ali começava uma verdadeira epopéia.

Para começar, a moto estava em plena avenida, carregada, pesada. Não tinha como empurrar. Pensei em reboque. Conversando com o dono de uma banca de revistas, ele disse que não sabia de nenhum tipo de serviço similar em Montevidéu.

Plano B: ir até um borracheiro e pedir para ele tirar o pneu e levar para consertar. Saio atrás de alguém para fazer isso. Nos lugares que chego, recebo apenas um “não, não faço esse tipo de serviço... você tem que tirar a roda e trazer até aqui para que eu possa arrumar”.

Bom, para encurtar a história: vou até uma empresa que vende vacina para pneus, mas não iria resolver, pois o problema era a roda amassada. O dono da empresa arruma um carro emprestado, coloca o compressor dele no carro, vamos até a moto. Lá chegando ele enche o pneu. Eu vou com a moto atrás dele até uma oficina para tirar a roda. Tiramos. Deixo a moto lá e vou com ele, no seu carro, até uma borracharia apenas para tirar o pneu da roda. Pronto. Agora vou com ele até uma pessoa que conserta rodas, quase no outro lado da cidade.

Esperamos cerca de uma hora e a roda enfim estava pronta. Para os padrões deles, acharam que ficou muito bom, mas eu quase chorei quando vi. Voltamos para a borracharia, montamos o pneu, voltamos para a oficina, montamos a roda na moto. Resumo: desde 8h da manhã até as 13h mais ou menos para resolver algo simples.

E o que isso tem a ver com o dia-a-dia da empresa? Bom, quando tudo isso estava acontecendo eu pensei seriamente em desistir, voltar para casa. Afinal, tinha perdido tempo, não sabia como a roda iria se comportar no asfalto, estava cansado, um pouco desanimado, enfim, tinha tudo para desistir do restante da viagem.

Então, claramente, ouvi: “Não deixe uma situação adversa mudar o teu planejamento”. Isso foi em janeiro de 2007 e até hoje lembro disso. Além de lembrar, aplico isso no meu dia-a-dia, na empresa, na minha vida pessoal.

Continuei a viagem, contornei o Uruguai e completei o meu planejamento inicial. Muitas vezes nos vemos diante de adversidades. Seja em nosso trabalho, em nossa vida pessoal, com nossos amigos, enfim, em qualquer área de nossa vida.

Diante desses imprevistos, podemos ter várias atitudes e uma delas é deixar que elas nos abatam, nos façam desistir, nos derrubem. Mas podemos chegar diante das adversidades e encará-las de frente, olhando para a situação, refletindo, pensando e indo à luta para resolver tudo da melhor maneira possível.

Fugir não faz parte do nosso vocabulário, não é mesmo? Temos coragem de rodar milhares de quilômetros, de pegar a estrada em 125, 500 ou 1000 cilindradas. Andamos no calor do sol forte, na chuva, de dia e de noite, em estradas ruins, esburacadas, movimentadas. Somos vencedores por sobrevivermos no dia-a-dia, então não vamos deixar qualquer problema nos abalar, nos abater. Afinal, somos motociclistas!

Bom, espero que você tenha gostado dessa minha estréia. Utilizarei este espaço no MOTO.com.br para escrever sobre motos, viagens e afins. Se você quiser, me escreva. Terei o maior prazer em lhe responder.

Forte abraço e bons caminhos!

Eldinei "P.P." Viana
ppviana@gmail.com
www.viajantesolitario.com.br


Fonte:
Equipe MOTO.com.br

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