Córdoba, Mendoza , Santiago e arredores

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Primeiro de tudo, quero pedir desculpas a todos os leitores e a equipe do MOTO.com.br. Esses eram para serem relatos semanais e eu fiquei quase 2 meses sem escrever.

É que passei um período delicado com saúde (nada grave, apenas a idade chegando hehehehehe) e a empresa me tomava o tempo que restava. Bom, como dizia meu pai, "explica mas não justifica".

Quero tentar resumir essa última parte do relato e passar a 'tal dica', que considero muito importante para quem for viajar para a Argentina.

Bom, desculpas pedidas, vamos passar ao que interessa. Lembram que na última parte do relato terminei dizendo que você iria rir da minha cara ao saber que fiquei 'sem pneu' no meio do nada, no deserto, com calor de 42 graus?

Pois é, chegou a hora de te contar sobre isso (mas prometo, de maneira resumida).

Antes de sair de Córdoba, verifiquei o pneu traseiro, que estava com uns 6.000km, e ele parecia normal, com bastante borracha no meio e nos ombros (eu sempre uso uma marca que dura de 10 a 11 mil km, e dessa vez havia trocado de marca - bem feito).

Como já contei, saí de Córdoba por um caminho 'alternativo', indo pelo Camino de Las Altas Cumbres, passando por Villa Carlos Paz e depois por Mina Clavero.

De Mina Clavero a idéia era seguir direto até Mendoza, pois seriam pouco mais de 460km (a maioria pela Ruta 20 e depois pela Ruta 142).

Depois de conhecer o 'Dique de La Viña', uma 'barragem/represa' com mais de 100m de altura - e claro, tirar várias fotos - segui direto. O que eu não contava é que uma grande parte desse trecho é deserto. Não um deserto igual ao Deserto do Atacama. Esse tinha vegetação, aquelas cheias de espinho, cactos, um calor em torno de 42 graus e, principalmente, passava ninguém a cada 30 minutos :-)

Eu já tinha andado um bocado... numa reta sem fim (você pode olhar nas fotos) escuto um 'psssssss' e a moto começa a 'dançar'. Penso "Furou o pneu, excelente oportunidade para testar os 'reparadores de pneus' que andam comigo há vários anos e eu nunca precisei usar" :-). Quando desço e olho o pneu, qual foi minha surpresa ao ver que o 'meio' dele estava completamente na lona, ou melhor, não tinha mais lona... tinham vários furos.

Isso era por volta das 12:00hs. Pense num sol. Tentei fazer como na TV e fui cortar um cacto para beber água... minhasarma, que coisa ruim, isso só funciona na TV mesmo hehehehehe.

Fiquei um tempo lá, embaixo do sol, me queimando. Passou um casal num Gol, me arrumaram uma água (isso depois de umas 2 horas) e falaram que minha melhor opção era ir uns 5 km para frente onde fica a divisa das Províncias de San Luis e San Juan. Lá tem um trevo e poderia ser mais fácil de conseguir ajuda.

Resumo da ópera : um tempo depois vem a Polícia de San Luis numa camionete - o rapaz do Gol havia avisado eles - e se oferecem para levar a moto até o próximo posto policial, 55km dali. Subimos a moto em cima da camionete e fomos a exatos 55 km/h até lá. E eu em cima da moto (mais 1 hora no sol). Lá no posto policial sou tratado muito, mas muito bem. Os policiais paravam os - poucos - caminhões e camionetes para ver se alguém me levava até San Juan, para tentar achar um pneu (era sábado hehehehe). Por volta de 18:00hs uma camionete para e diz "eu levo sim". Ufa... 21:30hs chegamos em San Juan, achamos uma 'gomeria' grande e 23:30hs eu estava com um pneu novo na moto. Pronto. Mais uma experiência para meu 'portfólio' :-)

Dormi em San Juan num hotel legalzinho e no outro dia cedo rumei para Mendoza. Mendoza é muito bonita. Muitas vinicolas (dizem que tem mais de 1.200 mas apenas umas 60 são abertas à visitação pública).

Fiquei em Mendoza 3 dias. Visitei vinícolas, shoppings, mercados, e tirei um dia para ir até Uspallata, Los Penitentes e até os pés do Aconcágua. Sim, eu iria passar por esse caminho no outro dia, indo para Santiago. Mas como soube que o Raly Dakar iria largar no outro dia de Uspallata, quis aproveitar e visitar tudo um dia antes, para no outro apenas ver a largada do Raly e rumar para Santiago.
 
Em Mendoza conheci vários brasileiros, com destaque para o Abdala e a Rosália, um simpático e amável casal de meia-idade (50 anos é meia-idade, não é ?!?!? :-)). Com eles visitei algumas vinícolas, passeamos, almoçamos juntos, fomos até Villa Vicencio, enfim, fizemos uma boa amizade. Viu como viajar de moto sozinho nem sempre é 'solitário'?

No outro dia saí para Santiago. Antes, claro, iria parar em Uspallata para ver a largada do Raly. Foi muito legal porque nunca antes na história desse país eu imaginei que iria ver uma largada do Dakar :-)

Depois rumo a Santiago-Chile. Também tudo novidade. A estrada é uma das mais bonitas que já passei. Bom, olhe as fotos para você ter uma idéia.

Uma alegria foi encontrar, já na fronteira, um grupo com umas 10 BMW R 1200 GS, vindo de Córdoba. E legal foi ir com eles um bom trecho... as vezes eu brincava, deixando as BMW se afastarem um pouco e depois eu 'pegava' elas nas curvas (lembrem-se: as BMW tem 105 cv, a FJR 143 cv, e nem vamos falar do 'braço' do piloto hauhauhauah)

Não quero me delongar muito falando de Santiago. Uma cidade com 6 milhões de habitantes e sem muitos atrativos turísticos (comparando com outras, claro). Fiquei num hotel que recomendo à todos - segundo o recepcionista, de cada 3 hóspedes, 2 são brasileiros hehehehe - o Maria Angola, que fica no bairro Providência, um bairro grande, com vários restaurantes, bares, etc e muito calmo. O hotel fica ao lado e na frente de postos dos 'Carabineiros del Chile'.

Com o Maurício como guia, dei uma passeada, troquei o óleo da moto, fui até Valparaíso e Viña del Mar (a primeira, uma cidade antiga, onde fica a sede do governo do Chile, um porto e alguns pontos turísticos; já a segunda, uma cidade linda, a beira mar, muito moderna, enfim, legal pra caramba)

Foi muito legal a amizade do Maurício e da Angélica. Devo voltar para Santiago em Junho (ou de avião, ou de carro) e vou visitá-los novamente. Motociclismo é isso, onde você estiver, você tem amigos.

Saio de Santiago e a volta é sempre chata. Pelo menos quando você volta pelo mesmo caminho. De Santiago-CH até Pato Branco-PR, pelo caminho que eu viria, são em torno de uns 2.500 km. Pensei "Vou fazer 1.250 num dia e 1.250 no outro, aí não me demoro".

Só não contei com 5 paradas ainda no Chile, antes da fronteira. Estavam arrumando as estradas.

E nos Caracoles uma verdadeira trapalhada da polícia Chilena. Um caminhão tombou e quando foram 'destombar' ele, o mesmo saiu andando - sozinho - e 'caiu' de uma curva para outra, veja o vídeo no Youtube. Com isso, fiquei esperando mais de 1 hora, e depois enfrentei uma fila enorme na fronteira.

Ou seja, o primeiro dia não rendeu e eu fiz em torno de uns 800 Km, parando em Rio Quarto, na Argentina. Quase nem dormi, acordei de madrugada e pensei "Vou tocar para casa" mas com o intuito de 'ir indo' hehehhe tipo, onde não der mais eu paro. Parei 1.757km depois na frente da minha casa. Foram mais de 21h viajando. Ok, se você não acredita, tudo bem. Eu não preciso provar nada para ninguém. Mas existem centenas - ou milhares - de irmãos motociclistas que já fizeram mais do que isso, é só ver no site da Iron But (o qual eu não sou 'associado' porque nunca planejei fazer essas kilometragens. Meu 'record' anterior eram 1.650km num dia com a FJR, e antes, 1.620km num dia com a V-Strom).

Bom, acho que agora vem o mais importante de toda essa enrolação :-)

A DICA

O Maurício me falou, em Córdoba, que um amigo dele tinha dado para ele um 'formulário'. Esse amigo contou que quando um policial tenta multá-lo, ele pega esse formulário (leva sempre 5 ou 6 cópias dele junto) e diz "Você pode me multar, mas preciso preencher esse formulário". O Maurício me disse que nunca usou, mas me deu uma cópia.

Ainda em Córdoba pensei "Vou fazer umas 5 cópias para mim". Na volta, numa cidade pequena, um policial me parou quase no fim da cidade. Disse que um outro policial (municipal) me viu 'passando um semáforo vermelho'. Eu, calmamente, disse "Eu não passei semáforo, mas tudo bem, eu só preciso preencher um formulário".

Quando chegou o outro policial, junto com uma policial, eu tentei argumentar, disse que não, que não tinha visto, que não passei o sinal, etc. Ele falou que a multa era de 1.200 pesos e bla bla bla (só essa situação daria uma outra coluna).

Resumindo : eu disse "Ok, pode fazer a multa, só preciso preencher esse formulário". Nesse formulário, que é um xerox de um original, num lado está escrito em espanhol e no outro em inglês. É um acordo oficial que vários países tem, tanto na Europa quanto no Mercosul, para inibir as extorsões.

Nele pede nome do policial, número de identificação, foto, descrição do que aconteceu, local da multa e uma série de informações. E é "oficial", tanto que pede para você enviar o formulário preenchido para o "Ministério de Relaciones Exteriores e Comercio Internacional" com endereço e tudo da Argentina.

Ah, e ainda tem um 'canhoto' para você destacar e dar ao "chefe" do policial envolvido.

Bom meus irmãos... chegou a tão falada hora de testar esse formulário. Falei então que tinha que preencher, peguei uma caneta e comecei a pedir "Qual seu nome, rango y número de placa". Os caras começaram a argumentar, dizendo que não tinham nada a ver com o formulário.

Eu mostrava e dizia "Olha, está escrito em espanhol, aqui está o endereço do Ministério de vocês, eu não aceito levar uma multa sem preencher."

Eles diziam "Mas nós temos ordens de não fornecer nenhum dado nosso (!!!)"

E eu dizia (mas tudo na calma) "Então eu não posso aceitar a multa, eu preciso até de uma foto, olha, leia aqui, diz que tenho que mandar uma foto junto"

Amigos, de repente o policial que me falou da multa se acalmou um pouco - sim, eles estavam nervosos, com medo suponho - e eu olhei para ele e disse "Senhor, eu não ví nenhum sinal, não vi sinal vermelho, se tivesse visto não passava"

Nisso ele olha para mim, sorri (e muito) e diz "Ah, você não viu. Então isso muda tudo. Não vamos te multar, você é um turista, está passeando e não viu o sinal, você é um homem sensato (bla bla bla). Olha, pode continuar a viagem, mas cuidado que aqui na frente tem mais 2 ou 3 sinais vermelhos"

Se eu pudesse te contar isso pessoalmente, você iria rir muito porque tem alguns detalhes a mais... foi uma piada, eu saí de lá rindo.

Claro que eu jamais usaria esse argumento do formulário se fosse à noite, se fosse apenas um policial - o cara te apaga e pronto - ou então se eu 'sentisse' que os caras eram 'barra-pesada'. Mas nesse caso era polícia municipal, eles nem andam armados. hehehehe

Bom, de agora em diante quando eu viajar para a Argentina, sempre vou levar umas 5 cópias desse formulário. E por estar escrito em espanhol e inglês, os policiais corruptos 'gelam' mesmo. Se eles forem te aplicar uma multa 'real', válida, aí não tem jeito. Mas pedir 1.200 pesos de multa nós sabemos que é extorsão.

Pronto. Contei a tal dica. E de lambuja vou deixar para download o formulário scaneado, frente e verso. Se você imprimir e não ficar muito bom, basta você redigitar da mesma maneira que está na imagem. Creio que vai ser muito útil :-)

Link para download da frente do formulário: ( http://www.viajantesolitario.com.br/down/form_argentina_frente.jpg )
Link para download do verso do formulário: ( http://www.viajantesolitario.com.br/down/form_argentina_verso.jpg )

Lembre-se de imprimir frente e verso na mesma página, ok?

Irmãos, novamente me desculpem pela demora. Agora estou esperando o clima melhorar para fazer um passeio de uns 2.200km aqui no Brasil, no sul mesmo.

Quando eu voltar conto como foi.
 
Forte abraço e bons caminhos... sempre!

Eldinei "P.P." Viana
ppviana@gmail.com
www.viajantesolitario.com.br



Fonte:
Equipe MOTO.com.br




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