Córdoba, Mendoza , Santiago e arredores

Se você acompanhou a primeira parte dessa minha 'epopéia solitária', deve estar curioso para saber o que aconteceu depois da primeira 'mordida' dos policiais (corruptos) que me pegaram na saída de Resistência. Quero ressaltar que, em 6.079 Km, só tive problemas com a polícia três vezes, e em duas delas tive que 'deixar um dinheirinho'. (Se você não acompanhou, clique aqui e leia a primeira parte).

Você, asssim como eu, sabe que em todas as profissões existem os bons e os 'marvados' :-) Então não vamos julgar um país por causa de alguns policiais corruptos (sim, e nem vamos julgar o Brasil inteiro por causa de alguns políticos... bem, deixa pra lá hehehehe)

Bom, continuei indo de Resistência em direção a Paraná, para depois pegar a Ruta 19 e seguir até Córdoba. Até Paraná nenhum problema. Depois, na Ruta 19, passei em uma pequena cidade que não lembro o nome e nem quero lembrar. Lá tinha uma polícia 'municipal'. Foi lá que eu descobri que 'los hermanos' tem um talento nato para o teatro.

Eis que um policial me para e diz que um 'comissário' viu que eu ultrapassei duas vezes em local proibido e passei em um semáforo vermelho. Bem, eu realmente ultrapassei em pelo menos um local proibido. Tinha um caminhão a 10Km/h na minha frente, o calor estava infernal, a rua era reta, eu coloquei do lado do caminhão e dei uma tocada no acelerador. Pronto, foram 1 ou 2 segundos e eu tinha passado o caminhão.

Só me restava esperar o tal 'comissário' chegar. Eis que chega uma senhora 'forte', numa motinho pequena. Eu penso "Oba, é mulher, mulher não é corrupta como os homens'. Ledo engano, Eldinei, ledo engano.

A partir dali o que se passa é digno de uma peça de teatro. Vou relatar de maneira diferente para não ficar cansativo de ler :-)

Ela: O senhor ultrapassou em dois locais proibidos e passou um semáforo vermelho.
Eu: Minha senhora, o semáforo eu realmente não vi.
Ela: Bom, deixa eu ligar para o Doutor da Policia Federal para vermos o que fazemos contigo (nesse momento ela pega um rádio, um rádio estilo Talk-About, e 'faz de conta' que está falando com alguém)
Ela: Doutor, estou com um jovem brasileiro que ultrapassou em dois locais proibidos, etc, etc, etc. (falando em castelhano/espanhol, claro). Nesse momento ela vira para mim e diz "O Doutor falou que a multa para isso é de 2.500 pesos"
Eu: Hummm... 2.500 pesos? Olha, você vai ter que me prender e prender a moto, porque eu não tenho esse dinheiro e nem tenho como conseguir.
Ela: Espera, vamos ver o que o 'Doutor' pode fazer. (novamente ela pega o rádio e 'liga' para o 'Doutor' dizendo que eu não tinha todo o dinheiro, que estava de férias, que não vi o semáforo, etc). Vira-se para mim novamente e diz "O Doutor disse que se você pagar agora podemos fazer por 750 pesos"
Eu: Mas eu não tenho esse dinheiro. Mostro a carteira com poucos pesos dentro e digo: "Eu uso somente cartão de crédito, para tudo, não trago muito dinheiro comigo".
Ela: Quanto dinheiro você tem ?
Eu: Poucos pesos (tinha uns 150 pesos trocados na carteira) mas tenho que ir até Mendoza ainda.
Ela: Deixa eu ver o que o 'Doutor' diz (novamente a mesma coisa, finge que liga e fala com o 'Doutor' - mas era hilário ela 'falando com ele', era como em novelas, onde a pessoa pega o telefone e diz "Sim Doutor, sou eu novamente... sim, ainda estou aqui com o jovem... mas ele não tem dinheiro... isso, não tem... só usa cartão de crédito... dólares? Deixa eu ver se ele tem dólares" então ela se vira para mim e pede "Tem dólares?"
Eu: Não, não tenho dólares.
Ela: E você não pode ir até um banco pegar dinheiro?
Eu: Não, meu cartão é bloqueado para saques. O melhor é vocês me prenderem aqui, com a moto. Aí eu ligo pro Consulado Brasileiro e a gente vê como vai ficar, eu ligo pro Brasil, ou pro Consulado aqui na Argentina (claro que estou tentando assustar ela hehehehe)
Ela: Não, vamos tentar resolver isso rápido para que você possa continuar sua viagem. Vou ligar pro Doutor novamente (hahauhauahauhauha) "Doutor, o jovem não tem como pagar a multa, não tem dólares... pois é... o que fazer... está de férias, quer ir até Mendoza... sim.... ok... obrigado" e vira para mim e diz "Quanto você pode arrumar?"
Eu: Olha, para colaborar com vocês, 60 pesos (estava ela e mais 2 policias no outro lado da rua)
Ela: Só 60 pesos?
Eu: Sim, senão eu vou ficar sem dinheiro
Ela: OK, mas cuide daqui para frente. Tem mais semáforos.

Ela me pede para dar o dinheiro 'disfarçadamente'. Coloco o dinheiro dentro dos documentos que estavam comigo, dou o dinheiro para ela e saio rindo, pensando: valeu os 60 pesos pelo espetáculo que ela deu :-)
* Eu resumi um pouco o 'espetáculo' para não ficar cansativo, mas 'ao vivo' foi bem mais demorado e engraçado!

É meus amigos... a polícia corrupta existe em todo lugar, a vantagem é que no Brasil conhecemos as leis e os nossos direitos. Mas lá... porém, como falei na primeira parte, se você me acompanhar até o final vai conhecer um macete que usei e saber se o mesmo funcionou ou não!

Continuo minha viagem pela Ruta 19 e encontro o trecho onde existe a maior concentração de mariposas (borboletas) por metro quadrado. Eram milhares, senão milhões delas. E dizem que é sempre assim. Elas morriam na carenagem da moto, na bolha, no capacete, na roupa... eu pensei que era um esquadrão 'kamikaze' de borboletas :-)

E no posto onde parei para abastecer e lavar a viseira, os carros que chegavam tinham a frente completamente cheia de borboletas mortas. Incrível. Nesse mesmo posto me informaram que é um trecho que sempre tem borboletas (pelo menos no verão). Eu nunca tinha visto tantas assim, nunca.

Continuo a viagem normalmente, exceto pelo calor terrível que faz naquela região. Não baixava de 40-42 graus. Passo por muitas motos brasileiras, mas elas vão ficando cada vez mais raras. A viagem começa a ficar entediante, pois o calor, mais o cansaço acumulado, mais aquelas retas enormes iam me desanimando.

De longe vejo uma moto com baús laterais, baú traseiro, placa branca e com garupa. Penso "É um brasileiro, vou chegar perto". Quando me aproximo vejo que é uma moto do Chile, uma Fazer 600 S com alforjes laterais e baú traseiro. Na garupa uma mulher. Passo por eles, buzino, continuo. Depois eles me passam, a garupa tira fotos (da minha moto, claro hehehehe), acenamos, etc. E assim ficamos por um tempo, ora eu passava por eles, ora eles me passavam. Até chegarmos em um pedágio onde, mesmo em cima da moto, pergunto de onde eles são. Santiago, eles respondem. Pergunto para onde vão. Córdoba eles me dizem. Pergunto se eles conheciam algum hotel legal em Córdoba. Me dizem que não, que vão tentar achar um pelo GPS e me pedem se quero ir junto com eles. Eu topo.

Fomos juntos até Córdoba, onde paramos para nos 'apresentarmos'. Mauricio e Angélica, 'coincidentemente' ele tem uma empresa de TI em Santiago e ela trabalha no Itaú de Santiago na área de TI (pode !?!?!? :-))

Juntos achamos um hotel, combinamos de jantar e ali começou a nascer uma amizade. E mais importante, ali constatei que nossa 'irmandade' motociclista existe não só no Brasil, mas em qualquer lugar, em qualquer país. Se você estiver com uma moto, você sempre vai ter amigos em qualquer lugar.

A noite conheci, quase sem querer, um restaurante como nunca tinha visto até então (e olhe que eu viajo bastante, se somar as viagens com a família, a trabalho e de moto tenho alguns milhares de quilômetros rodados). O restaurante era enorme, gigantesco. No meio existiam como 'ilhas' onde cada uma tinha alguns tipos de comida. Num lado, parilla era assada e você se servia à vontade - na verdade, por AR$ 32,00 você comia de tudo à vontade, pagando somente a bebida à parte. Massas eram feitas na hora, cozidas e feito o molho. No outro lado, frutos do mar. Sobremesas tinha de tudo. Frutas, salgados, enfim, uma variedade de comida que eu não vi até hoje em nenhum restaurante que fui. O endereço eu não peguei, mas fica na Boulevard Arturo Illia, entre as ruas Paraná e Independência (sim, eu sei que não é o ideal, mas são as únicas referências que eu lembro heheheeh )

Minha última dica dessa segunda parte é de um hotel que eu conheci em Córdoba. Fui conhecer para a próxima viagem. Chama-se Hotel Savannah, e fica na Rua Rosario de Santa Fé, 480 (é próximo do restaurante). O hotel é novo, quarto com ar-condicionado split, televisor, frigo-bar, hotel limpo, bem cuidado, bem interessante. E o preço não é dos mais caros: AR$ 142,00 com café da manhã e 'convênio' com um estacionamento a uma quadra. Se levarmos em conta que o peso está cotado em (mais ou menos) R$ 0,47 então não fica caro.

Na terceira parte dessa 'epopéia solitária' vou descrever um pouco a "Ruta de Los Altos Cumbres". É, talvez você já tenha ido e passado por Córdoba sem nem ter ouvido esse nome, mas te garanto, é uma estrada espetacular para se andar de moto. Você chega a mais de 2.000m de altitude, com visuais lindos, belas montanhas, e muita curva. Tanto curvas 'no alto' como curvas 'subindo e descendo'. Vale a pena.

Também vou deixar para a terceira parte minhas impressões sobre Villa Carlos Paz (que de Villa não tem nada) e Mina Clavero, além de te contar o que é a comida típica da região : chivitos.

Aguardo você na Parte III !

Forte abraço e bons caminhos !

Eldinei "P.P." Viana
ppviana@gmail.com
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Fonte:
Equipe MOTO.com.br




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