Sombra da Lua em uma Estrada Deserta

Reinaldo Baptistucci

Faz tempo, muito tempo, mas ainda lembro do dia, em que pela primeira vez, amarrei a mochila na garupa de uma moto. Nesse dia confesso estava indeciso e com um pouco de receio de ter que, sozinho, sair de São Paulo e enfrentar a estrada, pois sabia que ela estava muito além do meu jardim.

É verdade que no meu Bairro eu conhecia cada esquina, farol, buraco, padaria, banca de jornal, açougue e cachorro, mas a decisão de montar na motocicleta e sair para uma mal falada Rodovia Dutra era no mínimo cruel para a minha desconfiada auto confiança. Na verdade um nó na garganta que jamais eu tinha sentido antes aconteceu, pois a hora de pegar a estrada tinha finalmente chegado.

Em 1968 as coisas eram diferentes, aliás tudo era completamente diferente, nada que existe hoje pode ser sequer comparado a esse passado incomum que muitos tiveram a oportunidade de viver. Mesmo que nesta reportagem eu coloque todas as palavras para tentar explicar, vai ser quase impossível entender o que rolava na época.

Independente do momento político, do movimento mundial dos jovens pela paz , das lutas raciais, das guerras sem pé nem cabeça e do Rock maravilhoso que despertava, a liberdade era sem dúvida vigiada por uma sociedade cheia de medos e crendices que de alguma forma afetavam quase todas a decisões, incluindo as minhas.

Mesmo assim nesse dia dei partida, a moto pegou, espetei primeira e fui aos poucos deixando minha “área”, o último semáforo conhecido passou, dali para frente seriam só eu e a minha querida Ducati. Confesso que achava que sabia pilotar uma motocicleta, mas não era bem assim. De repente caí na real, era continuar ou voltar e ter que enfrentar aquele monte de vizinhos que de alguma forma, adorariam ter ido comigo, mas infelizmente por algum motivo que eu desconhecia ou por alguma força maior não foram.

Pois bem, fui e voltei melhor, descobri nessa minha primeira viagem que com a minha moto eu poderia, por exemplo, conhecer todo o desconhecido Brasil. Foi exatamente o que aconteceu, o tempo passou, as estradas passaram, das motos que tive sem dúvida, sinto saudade de todas, aprendi mais do que ensinei, e talvez por isso não parei.

Fui cada vez mais além e mais distante e hoje olhando para aquele longínquo ano de 1968 chego a conclusão que ainda somos capazes de saborear e dar valor à beleza única da Sombra da Lua projetada no asfalto de uma Estrada Deserta.



Fonte:
Equipe MOTO.com.br




Compartilhe essa notícia

Receba notícias de moto.com.br