ESPORTES DE ALTO RISCO EM DEBATE

Adventure Sports Fair contou com a presença de Juca Bala na discussão do tema.

Por Thiago Fuganti

Durante quatro dias seguidos, a Bienal do Ibirapuera, localizada na zona sul da cidade de São Paulo, recebeu uma enorme gama de esportes de aventura na oitava edição do Adventure Sports Fair. O evento chamou a atenção de inúmeras pessoas, que puderam conferir as novas tendências do segmento nos quesitos equipamentos, vestuários, calçados, veículos, modalidades esportivas e até mesmo debates e palestras relacionadas ao setor.

Neste domingo, último dia da feira, uma das maiores atrações disponíveis ao público foi a longa conversa sobre esportes de alto risco, que teve como mediador o doutor Clemar Corrêa, médico neurocirurgião e responsável pelos atendimentos nas principais provas de aventura do país, como o Rally dos Sertões.
 
Fora ele, participaram do bate papo alguns dos mais renomados esportistas brasileiros envolvidos nas consideradas competições de alto risco. Juca Bala, bicampeão do Sertões na categoria motos, foi um dos presentes e explicou — no seu entender — o significado de “risco” e como este deve ser encarado nas disputas de motocicletas.

“Risco é um desafio, uma adversidade. Nas motos, o importante é confiar nas informações da planilha, já que além de informar o caminho, o mapa entregue aos pilotos e navegadores informa os trechos de risco no percurso”, afirmou o piloto. “Eu, particularmente, gosto de dias difíceis, pois me deixam sempre concentrado. Relaxar em cima da moto é perigoso e isso sim é um risco”.

Rodrigo Raineri, que recentemente encarou uma escalada à montanha do Everest, também participou do debate. “O que atrai um esportista como nós não é o risco em si, mas sim fazer coisas cada vez mais difíceis e complicadas. O risco é inerente em alguns casos, faz parte e nós temos que lidar com isso. O importante é não ter medo da morte”, disse.

Medo, limites, religiosidade e família foram outros assuntos discutidos. “Já passei dos limites várias vezes. No Dakar eu bati em uma vaca a 140 km/h, sai rolando por metros e ainda caí em um barranco. Depois que parei, mexi os pés e as mãos para ver se estava inteiro e fiquei aliviado, mas foi um susto muito grande”, lembrou Juca Bala, um competidor bastante religioso.

“Antes pedia a Deus para vencer, agora eu peço para voltar”, revelou o motociclista, que sempre carrega um escapulário nas competições. No caso de Raineri, o amuleto da sorte é outro: “Eu levo sempre a mesma roupa de baixo para expedições e uma foto do meu filho sempre está comigo. Além disso eu sempre rezo e peço permissão para entrar na montanha. São coisas importantes para a nossa tranqüilidade emocional”, completou.

Até o doutor Corrêa admitiu levar um amuleto consigo. “É difícil um médico ter essas coisas, mas uma vez no Rally dos Sertões estava me deslocando de moto e dormi. Acordei na contra-mão, com um caminhão muito próximo. Me joguei no acostamento e parei. Tínhamos acabado de entrar no Ceará e vi uma estátua do Padre Cícero bem ao meu lado. Desde então, levo sempre uma imagem dele comigo”, contou.

Morte; os esportistas de alto risco convivem muito próximos dela e precisam saber como lidar com o assunto. “Sempre procuro pensar no melhor. Só peru morre na véspera, não acredito que irá acontecer antes do tempo”, comentou Juca.

“Nos preparamos melhor, até psicologicamente, para as situações piores. Não podemos ter medo de morrer. O medo em uma situação de risco atrapalha o raciocínio”, acrescentou Raineri. “Por isso temos que treinar incessantemente para quando nos depararmos com uma situação dessa possamos nos livrar o mais rápido possível”.

Apesar de serem aventureiros e corajosos, os representantes brasileiros no cenário esportivo também são seres humanos; passíveis de medo e desistência. “Já comecei uma escalada e pedi para voltar, porque não estava bem, sabia que se algo acontecesse eu não ia conseguir me virar”, admitiu Raineri.

“No ano passado não cheguei ao cume do Everest por uma distância de uns 30 metros verticais. Tinha para mim que já tinha sentido todas as sensações de que precisava naquela expedição, estava realizado. Não precisava subir mais”, afirmou. “Existem alguns momentos em que temos que admitir um passo para trás, para depois poder dar dois para frente”.

No caso de Juca Bala, a lembrança de desistência curiosamente foi longe do mundo das duas rodas. “Fui fazer um bungee-jump e fiz o cara me descer assim que chegamos no alto. Não consegui pular. Travei”, brincou.

O mundo das motocicletas, que neste ano tem vivido uma de suas melhores fases de mercado, possui vários tipos de competições esportivas, sejam elas em pistas de asfalto ou off-road. Trata-se de uma classe totalmente ligada aos chamados esportes de alto risco e, por tal razão, este assunto mereceu ser acompanhado com carinho.


Fonte:
Equipe MOTO.com.br

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