Amizade, paixão por motos e solidariedade

Adriano Cecy Susko

Meu velho Pai, GILERA (falecido em 2005), era proprietário de uma oficina mecânica no bairro Rebouças, em Curitiba (PR), a Tchan Motos. Minha mãe o ajudava, na medida do possível, e as coisas estavam ficando complicadas pra ele devido ao acúmulo de serviço.

Um belo dia um rapaz, morador de rua, pediu a ele trabalho para que pudesse arrumar dinheiro pra comer. Meu Pai aceitou e deu trabalho ao homem. Gostou do serviço dele e decidiu continuar por mais alguns dias. Passando o tempo, fez uma proposta ao homem para que fosse funcionário dele na oficina. O homem aceitou com muita gratidão e contou-lhe sua história.

Esse homem fora expulso de casa por sua mulher e perdeu tudo que tinha. Entrou em depressão e passou a beber e decidiu morar na rua. Perdeu a vontade de viver. Meu Pai comoveu-se com a história dele e decidiu contratá-lo.

Trabalharam juntos por anos e um dia o homem disse a meu Pai: "Juntei um dinheiro e vou voltar pra minha terra (Bahia). Você me libera? Posso ir?". Meu Pai, triste com sua saída, mas feliz por ter ajudado uma pessoa que parecia perdida, fez sua rescisão e liberou o homem. Ele voltou pra sua terra natal.

Passaram-se anos e meu Pai seguiu a vida, sem noticias do amigo. Num trágico dia de sexta-feira, meu Pai voltando do trabalho em outra oficina, pois tinha vendido a sua, foi atropelado por um motorista bêbado que cruzou o sinal vermelho e o pegou em cheio na moto.

Meu Pai perdeu a perna esquerda, ficou com vários problemas de saúde e entrou em depressão, pois a moto sempre foi sua paixão. Sem vontade de fazer nada, aposentado por invalidez, em casa e muito nervoso, meu Pai estava definhando. Um belo dia, um outro amigo, o levou a um bar só para motociclistas chamado FARANDOLA, em Curitiba.

Quando estava conversando com seus amigos do passado, quem vem ao seu encontro e o chama de irmão?... O rapaz que ele tirou da rua. Inacreditavelmente, o homem voltou pra Bahia e alguns anos depois, ganhou na loteria, um dos maiores prêmios da época (15 anos atrás). Quando o homem chamou pelo meu Pai, ele nem o reconheceu, mas o homem se identificou e ambos ficaram muito felizes pelo reencontro. Meu Pai contou sua história trágica do acidente e sem pensar duas vezes o homem falou pro meu Pai, "Vou fazer você voltar a andar de moto".

No dia seguinte, foram a uma empresa que fabrica próteses em Curitiba e fizeram todos os procedimentos necessários para que meu Pai tivesse sua mobilidade de volta. Este anjo que apareceu na vida de meu querido Pai comprou a prótese pra ele (cerca de R$ 8.000,00). Ele poderia até correr com a prótese, tomar banho com ela, etc.

Com essa nova motivação, meu Pai fez um triciclo pra ele, com direito a tudo que ele sonhava. Exclusivo. Meu Pai parecia uma criança que acabou de ganhar sua primeira bicicleta. Voltar ao meio da motocicleta foi sua renovação de vida. Pena que a vida, também nos reserva, além de alegrias, muitas tristezas. Meu Pai faleceu, não num acidente de moto, que aliás teve 29 no total (isso mesmo, 29 acidentes de moto), mas acabou falecendo de AVC (Acidente Vascular Cerebral). Coisas da vida que a gente não entende, mas acreditem, vale a pena viver e ter fé que um dia você renovará seu sonho. Tenho saudades do meu velho, mas tenho certeza que onde ele estiver, a moto ainda faz parte de sua vida. Abraços e até a próxima.

O “motonauta”  Adriano Cecy Susko participou do Moto Repórter, canal de jornalismo participativo do MOTO.com.br. Para mandar sua notícia, clique aqui.



Fonte:
Equipe MOTO.com.br




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