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Mauritânia: Viajando de moto pela "Terra dos Mouros"

27 de September de 2016
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Raphael Karan

Na minha última noite no Sahara Ocidental, dormi numa tradicional tenda árabe, como dos filmes, com tapetes e almofadas coloridas espalhadas ao redor, tendo ao centro, um alto mastro de sustentação. Como eu não faço uso de profilaxia para malária, ou seja, não tomo remédios para minimizar os efeitos de uma possível malária, sempre procuro evitar picadas de pernilongos, dormindo sob a proteção da tela da minha barraca. Sendo assim, montei-a no interior da tenda árabe.

Acordei quando o sol ainda não havia nascido, tomei meu café da manhã como sempre o faço, pus a bagagem sobre a moto e parti para a fronteira, que estava a poucas centenas de metros dali. Uma longa fila de carros e caminhões já havia se formado, esperando o momento que a fronteira fosse aberta pelos oficiais marroquinos. O trâmite do lado marroquino (lê-se Sahariano, lembrando que o Sahara esta ocupado pelo Marrocos) foi inesperadamente demorado. Horas depois, já com meu passaporte carimbado, segui por uma estradinha de areia e pedras, que aparentava ser terra de ninguém, devido aos carros abandonados, apodrecendo ao sol ao lado da trilha. Ao chegar do lado da Mauritânia, pela primeira vez o Carnet de Passage, que tanto me faltou para cruzar a Ásia, anos atrás, foi solicitado. Estava feliz da vida por poder utilizá-lo. Teoricamente, com o Carnet, eu não necessitava desembolsar nenhum dinheiro e com o visto que havia solicitado anteriormente na Capital do Marrocos, eu deveria entrar no país sem problemas. Na teoria apenas.



Assim que os oficiais conferiram meus documentos, pediram que pagasse uma taxa de alfândega. Perguntei se me dariam recibo ou algum outro comprovante e a resposta foi negativa, ou seja, taxa do bolso do oficial. Como o valor não era alto, paguei e ao sair da pequena casa de madeira, com a placa de “Douanes” (alfândega em francês) pendurada na entrada, um sujeito vestindo o tradicional “darraa” um traje tradicional, se aproximou e me ofereceu um seguro para moto, que segundo ele, era obrigatório no pais. Respondi que não iria comprar nada e segui adiante. Pelo retrovisor, vi o sujeito entrar num Mercedes-Benz antigo e me seguir. Alguns quilômetros adiante, no primeiro dos muitos Check Points policiais, nos quais seria parado, o vendedor sai do carro e novamente oferece o seguro. Não dei atenção e segui a viagem, sempre atento ao retrovisor à procura do Mercedes. O chato ficou para trás, porém, a todo o momento eu via Mercedes-Benz, até na direção contraria da estrada. Esse modelo de carro é o mais comum na Mauritânia e invariavelmente movido a diesel. A frota a diesel é tamanha, que em muitos postos de combustível, não é possível encontrar gasolina, apesar de o país ser exportador de petróleo.

O tanque da moto tinha capacidade de 20 litros. Como a velocidade que viajava era de 80 km/h e a media de consumo era de 19 km/l, isso resultava numa autonomia de aproximadamente 380 km. Segundo os mapas que levava na bolsa de tanque, não haviam cidades com distâncias maiores que essas entre si. Mas por duas vezes necessitei de gasolina extra. Seguindo para o sul num longo trecho de deserto, tive de comprar gasolina que era vendida em garrafões plásticos a um preço exorbitante. O bom era que eles punham uma meia de mulher no funil, para filtrar possíveis grãos de areia misturados ao combustível e numa outra ocasião comprei quase 20 litros de um grupo de Belgas que viajavam em três veículos 4 X 4 e tinham gasolina extra em pequenos contêineres.

Praticamente todo território da Mauritânia ou “Terra dos Mouros” em Latim, fica dentro do deserto do Sahara e por essa razão não há terras aráveis nem permanentemente produtivas. Excesso de pastagens, desmatamento e a erosão do solo causada pela seca estão contribuindo ainda mais para a desertificação. Recursos de água potável muito limitados e são provenientes do Senegal, que é o único rio perene de todo o país. A paisagem do deserto aqui muda, exibindo imensas dunas de areia de coloração avermelhada muito bonitas. Para acampar era necessário sair da estrada e pilotar na areia, pondo a prova os pneus mais off do que on road, que havia comprado no sul da Espanha. Foi sem dúvida a escolha mais acertada. Apesar de acreditar que o melhor equipamento é nossa força de vontade, prova disso foram três franceses que conheci na estrada, que estavam cruzando a Mauritânia em ciclomotores de 100 cc, suspensões acertadas e pneus corretos, faz muita diferença em certos tipos de terreno.

A maior cidade é a capital Nouakchott e assim que lá cheguei, fui diretamente para a embaixada do Mali para solicitar o visto daquele país. Entrei com meu passaporte, documentos da moto, fotos etc. nas mãos para preencher os formulários. O segurança me assegurou que não haveria problemas em deixar a moto com toda bagagem do lado de fora. O visto ficaria pronto no mesmo dia então resolvi esperar ali mesmo. Contando um pouco da minha viagem ao segurança e a um homem simpático e simples que depois vim a saber que era o chefe do protocolo, fui convidado a pernoitar dentro da embaixada do Mali. A princípio fiquei confuso. Não sabia se havia entendido corretamente, pois o Hassaniya, Árabe, alem de Francês e outras tantas, são as línguas faladas no país. Apesar de eu entender um pouquinho de Francês, em Hassaniya eu só falava “olá”, mas era exatamente isso. Nunca havia esperimentado tamanha hospitalidade por parte de uma embaixada. Nos dois dias que lá fiquei, pude lavar algumas peças de roupa e relaxar. Em Nouakchott encontrei cyber cafés, lojas que vendiam produtos europeus, concessionárias de carros europeus e japoneses que contrastavam com a falta de infra estrutura. Não existe uma só calçada (passeio) pavimentada. Todas são de areia e cabras caminham de um lado para o outro a procura do que comer.

Cabras e camelos são talvez os animais de corte mais bem adaptados as regiões desérticas. O camelo pela caracteristica de armazenar água e as cabras por comer quase tudo, de arbustos a papel, lixo e restos de comida. Achei curioso um açougue que mostrava em seu letreiro  a venda de carne de camelo.

Eu necessitava de  “Ouguiya”, moeda corrente e fui de taxi até um mercado aberto onde me indicaram que poderia trocar dólares. Assim que o veículo se aproximou do local, uma multidão de “doleiros” se degladiavam gritando na janela da porta para oferecer seus serviços. Eram tantos e tão agressivos que pedi ao taxista que fossemos embora dali. Neste momento um deles gritou uma oferta maior que a de todos os outros: 250 Ouguiyas por Dólar. Com uma quantidade razoável de Ouguiyas no bolso, voltamos para embaixada.

Durante longas viagens, a comunicação via internet passou a ser fundamental, tanto pela facilidade do envio de matérias e fotos como essas, como para dar “sinal de vida”. Familiares e amigos, ficam ansiosos por notícias pois, para quem fica, a falta delas é na maioria das vezes motivo de preocupação. Por mais que eu enfatizasse que em muitas cidades da África e obviamente nos acampamentos no deserto não há internet, aqui no Brasil, eles pareciam não entender. Por sua vez, para quem está na estrada a tela de um computador, é o porto seguro onde podemos dividir as alegrias e angústias que estamos vivendo. A possibilidade de ouvir a voz e ver a face de pessoas queridas por meio de programas de informática, faz a vida parar, os problemas desaparecerem e sentir como somos felizes por ter alguém, do outro lado do mundo, esperando por nós.

Seguia agora para o leste da Mauritania, na direção do Mali. O mapa rodoviário que havia comprado na Alemanha alertava para o perigo da estrada estar ocasionalmente coberta de areia, devido ao Siroco que é um vento quente, muito seco, que sopra do deserto do Sahara em direção ao litoral Norte da África, por vezes mudando imensas dunas de lugar. Seguindo adiante com esse forte vento contra, que trazia nuvens de areia junto, imaginava que, caso apenas um desses milimétricos grãos passasse pelo filtro de ar, poderia se alojar “giclê” do carburador fazendo com que o motor parasse de funcionar. Resolvi parar e só voltei a pilotar quando a ventania abrandou. Fazia muito calor e quando estava a uns 15 km da cidade de Boutilimit ao sul da Mauritania, senti fraqueza e minha visão ficou fraca.

Não conseguia mais focar num ponto definido, ora olhando o painel da moto, ora para frente na estrada. Temendo ter uma súbita queda de pressão e consequente tombo, parei a moto e deitei nas areias do deserto, na tentativa de me reestabelecer. Bebi água do cantil que levo comigo, mesmo quente, na esperança de me sentir melhor. Após um breve descanso voltei ao banco da moto e tentei seguir em frente, afinal de contas já estava próximo de Boutilimit. Mais uma vez o mal-estar retornou, e com mêdo de um acidente, parei novamente a moto. Não sabia ao certo o que estava acontecendo comigo. O sol implacável não ajudava muito e a ausência de sombra me deixava preocupado de ter uma rápida desidratação e insolação. Não podia ficar ali, tinha de fazer algo, foi quando ouvi o barulho de motor de um carro se aproximando. Levantei e acenei vigorosamente para que ele parasse.

Havia três homens dentro que pareciam estar com mais medo de mim do que eu da situação. Falavam frances então, com dificuldade disse a eles o que se passava, falei que era brasileiro, meu passaporte estava do bolso da jaqueta e se algo acontecesse comigo, para que eles avisassem as autoridades. Em seguida, pedi a eles que me acompanhassem ate a cidade. Assim foi, eu na frente e o carro a pelo menos 500 m atrás. Chegando à cidade fui direto para o hospital, onde fui recebido por vários homens de turbante que me encaminharam para uma médica muçumana que falava ingles e que usava um véu que lhe cobria tambem a face. Sentado, contei o que havia acontecido e sob o olhar atento da Doutora e de vários funcionários que me rodeavam, disse que estava com medo que fosse malária. De repente comecei a chorar, talvez por estresse, talvez por estar só, até hoje não sei ao certo. A médica pedia para ter calma, que eu lá estava seguro e olhando nos meus olhos disse: Homem não chora! E eu respondi: Chora sim. Estava com desidratação!

No dia seguinte, assim que me recuperei, fui para a cidade de Aleg à procura de um hotel para descansar decentemente. O hotel não aceitava dólar e eu já não tinha mais Ouguiya, moeda local. Não há como sacar dinheiro em caixas eletrônicos na Mauritania por um motivo muito simples: eles inexistem. Para piorar a situação, o único banco de Aleg, não troca dólar, somente euro. Contrariado, voltei ao hotel onde havia estacionado a moto com toda bagagem e havia um homem a admirando. Chamava-se, Jamal, um apresentador de TV que havia ido para Aleg para cobrir um evento. Expliquei o que estava acontecendo e ele gentilmente trocou uns dolares para que eu pudesse pagar a hospedagem. Ele tinha amigos na cidade e me convidou para almoçar na casa de um deles. Sem hesitar, aceitei e juntos fomos comer.

Ao chegar fui bem recepcionado, sentamos descalços  sobre tapetes no chão da sala de jantar, pois assim é a tradição. Logo veio um garoto com uma jarra de água, sabão e um recepiente para lavamos as mãos. Em seguida foi servido numa grande bandeja, cuscus e ao centro, uma grande cabeça de bode cozida. Retiram somente o couro, deixando todo o resto, olhos, lingua, chifres. Como não usam talheres, tanto o cuscus como a carne que tinha que ser pega com as mãos. Não posso dizer que foi um dos meus melhores jantares, mas saciei a fome. Mais tarde me convidou a participar do evento que fora “cobrir”, uma apresentação folclórica de canticos e dança. Curiosamente os homens acomodan-se na frente, nas melhores posições e as mulheres no fundo sentadas ao solo.

Na Mauritânia pude observar a transição da África Árabe para África Sub-Sahariana ou erroneamente chamada de África Negra. Os negros ou sub-Saharianos, sofreram processos escravagistas mesmo antes de os europeus chegarem a costa africana. Bérberes e Tuaregues os capturavam e levavam para a China, Índia e Oriente Médio. A partir do século XV iniciou-se outro processo escravagista, direcionado inicialmente para a Europa, primeiro para Portugal, Espanha, Inglaterra, França e norte da Itália e em seguida para as Américas e Caribe. Com o fim da escravidão iniciou-se outro martírio Africano. Após a conferencia de Berlim em 1885, que fixou a partilha colonial da África, as imagens simpáticas que eram anteriormente atribuídas a esse continente deixaram de existir.

Os povos se tornaram sem cultura, sem historia, sem identidade e mergulhados na bestialidade para justificar e legitimar a missão dita pacificadora da colonização. A exploração e a dominação brutal, as quais foram submetidos os africanos, exigia que fossem considerados brutos, anárquicos e ignorantes. Somente no Congo, dominado pela Bélgica, no final do séc. XIX, o colonialismo implantado pelo famigerado Rei Leopoldo, foi responsável por cerca de 10 milhões de mortes. A coroa britânica necessitou de uma guerra de 100 anos para conquistar o império ASHANTI, atual Ghana, um dos reinos mais ricos da África. Enfim, existem motivos de sobra para que a África de hoje seja o continente que concentra os piores índices de desenvolvimento humano.

A distorção que a mídia faz em relação aos muçulmanos, associando-os ao terrorismo, acaba por esconder pontos muito interessantes de sua religião. Por exemplo, me explicaram o motivo do mês do Hamadan, quando muçulmanos do mundo todo, jejuam, praticam caridade e se abstém de sexo, desde o nascer até o por do sol. Segundo eles, é para que todos sintam na pele, as agruras e privações que os mais necessitados enfrentam.

Grande parte do percurso do Rali Paris – Dakar atravessa a Mauritânia e como já foi amplamente divulgado, a prova de 2008 foi cancelado em função de uma família de viajantes franceses terem sido assassinados no país. Uma sensação desconfortável tomou conta de viajantes como eu, que estavam cruzando aquelas paragens. Isso por que, qualquer estrangeiro não consegue passar despercebido nas ruas da Mauritânia. Todos o observam, como se estivesse assinalado em algum lugar do corpo: Sou gringo. As crianças insistem em chamar a atenção falando: Mesieur, mesieur, mesieur (Senhor, em francês) o tempo todo.

As últimas cidades que visitei foram Aghorat e Ayoun, esta última já muito proxima da fronteira do Mali. Demorei demais para cruzar esse trecho e com o sol já poente, interrogava pessoas que via na beira da estrada, se podia acampar em algum local próximo. As respostas, invariavelmente negativas, me deixavam apreensivo. Com muita fome, pois não havia almoçado e com medo de pilotar na escuridão, abordei uma vez mais algumas pessoas pedindo orientação para acampar, quando um carro parou, seu motorista desceu e perguntou se necessitava de algo. Mas uma vez percebi que meus anjos da guarda continuam de capacete, me seguindo de perto. Segui o carro pelas areias do sul do Sahara até o sitio proximo onde fui recebido, quase com honras por uma família que ofereceu-me um quarto na modesta casa, sem energia elétrica nem agua encanada. Após um reconfortante banho de balde e um apetitoso jantar, passei a última noite neste país que leva o nome de “Terra dos Mouros”. 

Raphael Karan (raphael@raphaelkaran.com.br)
Palestrante e Guia de moto-turismo
www.raphaelkaran.com.br

Fotos: Arquivo Pessoal


Fonte:
Equipe MOTO.com.br
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