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Colunistas - Reinaldo Baptistucci

Aprendendo a andar de moto

09 de July de 2008
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Não é de hoje que eu ando de Suzuki. Nos idos da década de 1970 rodei de GT 380 e 550, dois tempos e três cilindros. Eram maquinas que aceleravam muito e que normalmente não paravam tão bem.

Lembro de ter ido para a Argentina com o Marinho, eu de Yamaha TX 500 e ele de GT 550 prata. No caminho, íamos trocando de motos só para sentir as enormes diferenças entre motores de quatro e dois tempos. Nos infinitos retões argentinos, quem estava de GT sumia.

É evidente que o tempo passou e hoje temos, felizmente, uma gama enorme de motocicletas à nossa disposição. Isso é maravilhoso, mas por outro lado um tanto complicado, pois na hora de escolher a próxima moto você tem que, além de fazer um monte de contas, ter que optar por um modelo de sua preferência. E pode acontecer de que a escolha seja errada.

O raciocínio é fácil de entender. Caso você tenha dado uma voltinha com uma moto e se apaixonou, ou viu alguém passar do seu lado com a sua futura preferida e determinado resolve comprar a tal moto achando que vai se dar bem, cuidado!

As revistas estão aí dando testes de moto quase que mensalmente atribuindo qualidades e defeitos, mas mesmo assim vale conversar também com quem já teve e rodou por muito tempo com sua próxima escolha.

De 2006 até bem pouco tempo atrás eu rodei de HD 883. Lembro que na época li reportagens em revistas e sites sobre a tal moto e uma das frases que eu achei interessante foi que a 883 era a porta de entrada para os iniciantes no mundo das harleys. Eu, humilde, refleti sobre o assunto já montado na HD e não vi nenhum início nessa historia. A moto foi feita para ser usada diariamente, sem sustos ou aborrecimentos, e foi o que fiz nos 30 e tantos mil quilômetros que tive o privilégio de estar com ela.

Da mesma forma que andei de HD, dei umas voltinhas tímidas com uma MAX SED 125 e com a VBlade, ambas da Sundown. Cheguei a escrever sobre elas, já sabendo que não existe uma moto perfeita, todas são limitadas. Talvez só na cabeça do futuro comprador exista a moto perfeita e que após a compra muitas vezes se decepciona com sua mais recente aquisição.

Lembro de um amigo já falecido que trocava de moto compulsivamente, procurando a perfeição naquilo que não existe em se tratando de motos. Certa vez em 1999 estávamos parados no farol, eu de DR 800 e ele de SRAD 750, quando do nosso lado parou uma Kawasaki ZX11, uma Guzzi Califórnia e pra matar a pau uma BMW GS 1100.

Meu amigo pirou e eu dentro do capacete só pensava na tão brutal proposta das três rainhas de solos diferentes. Na hora virei para ele e perguntei: “E aí, você vai pra pista, pra estrada ou para o deserto do Atacama?” Foi de propósito, pois eu sabia que a tal SRAD era um avião sem asas que fazia muita curva, tinha enormes qualidades, mas não era perfeita para alguns tipos de uso, fazer o quê?

A próxima moto

Eu estava na Bahia, mais precisamente em Cajaiba trabalhando de sol a sol em uma escuna, andando com uma DT 180 emprestada e caindo aos pedaços, mas que para mim naquele momento era a melhor moto do mundo, pois quebrava altos galhos. É lógico que pensava com carinho na HD, mas seria impossível trafegar pelas trilhas e estradas cheias de areia. Pensava também em trocar de moto e viajei na idéia de ter, ou melhor, tentar comprar uma moto com carda. Já sabia que o mercado de motos novas é suprido por BMW, Honda, Yamaha, Suzuki. Só faltava fazer as contas e optar por uma delas.
 
Aproveitando a minha curta vinda a São Paulo, saí pesquisando preço e condições de pagamento e cheguei à conclusão de que a Suzuki Boulevard 1500 seria a minha próxima moto. Se eu estava certo ou errado só saberia depois de andar com ela, já que não tive a oportunidade de fazer o tal do test-drive. Porém, li o teste feito no MOTO.com.br e francamente achei bom. Comprei então um “trator com alma de cadillac”.

Sábado chuvoso em Sampa, fui buscar a Suzy, que estava em uma garagem na Vila Olímpia. Estava preocupado, pois a moto ficou parada há um mês e meio, tempo esse que passei morando a bordo da Escuna Anabel I lá pras bandas do sul baiano.

Cheguei com calma e levantei os 315 quilos com cuidado. Era o meu primeiro contato e não pretendia tomar um chão logo de cara. Virei a chave e ela pegou na hora, sem dúvida a injeção eletrônica nessas horas é tudo de bom. Após o necessário aquecimento do motor, espetei a primeira marcha e saí lentamente subindo a rampa da garagem e entrei na rua. Logo de cara percebi que ela era meio complicada em baixa velocidade, fiz a curva e quase fui parar do outro lado da calçada.

Na seqüência, parei no posto, abasteci e fui sem destino certo para a Rodovia Castelo Branco. Chovia fraco, rodando a 110 km/h percebi que meu pé direito escorregava da plataforma. A coisa se agravava com as retomadas vigorosas do motor lá em baixo, torque à vontade em qualquer marcha ou ultrapassagem, essa era a moto que eu estava pilotando, com muito conforto e maciez.

Não percebi, mas já estava andando muito forte. A Suzy 1500 engana nesse ponto, pois não transmite a sensação de velocidade e a não ser que você abaixe a cabeça para ver o enorme velocímetro, fica quase impossível saber a quanto tu andas.

Reta pura, com vento lateral, a moto ia muito bem sem balançar, parecia mais um trem bala. É fácil entender o motivo; com um entre eixos enorme ela proporciona uma tocada firme e o motor bem equilibrado não transmite vibrações. Na verdade ele sussurra e trabalha com precisão absoluta.

A primeira parada para abastecer me deixou preocupado. Seu consumo foi de 21,3 km/l, foi daí que lembrei da VMAX e da própria 883, pois para quem pretende fazer longas viagens, os 14 litros no tanque são muito pouco. No caso, cinco litros a mais estariam de bom grado, pensei. É lógico que nessa hora o frentista perguntou se era uma HD e eu respondi um NÃO com todas as letras e expliquei que era uma japonesa com certeza.

Saí da Castelo Branco e fui direto para a Rodovia dos Tamoios, com destino a Ubatuba. Na descida da serra, apanhei feio de CG e YES, seria quase impossível tentar, melhor dizendo, ousar acompanhar as miúdas, era sem dúvida uma questão de pura geometria, a Boulevard 1500 não gosta de curvas de baixa. Caso você insista é bem provável que vare uma cerca de arame farpado e tome um solene tombo. Diante dos fatos, aproveitei e fui vendo com detalhes a paisagem exuberante.

Já nas praias um detalhe chamou minha atenção: nas curvas de alta, ela tem uma ligeira tendência de sair de frente, tive que reaprender a pilotar, nada grave, mas com paciência fui encaixando a moto.

No dia seguinte, uma surpresa: Desconfiado de que a pressão dos pneus estivesse errada, resolvi em vão tentar calibrar os enormes e largos sapatinhos da rainha estradeira e quase não consegui. O motivo era simples, mas de difícil solução. O bico da válvula fica do lado interno da roda e na esquerda da moto, lado do pesinho, a moto é baixa e o bico fica praticamente colado no cubo da roda. A solução foi procurar um borracheiro, pois os calibradores dos postos por onde passei eram todos retos e não alcançavam a válvula do pneu. Nesse caso, a solução seria um bico em "J" e do lado direito, resolvendo o problema.

Aliás, eu até hoje não sei por que a corrente da moto fica do lado mais complicado para uma perfeita lubrificação, principalmente se você estiver com alforjes laterais e carregado de bagagem. Quem viaja sabe que é uma temeridade ficar embaixo da moto do lado mais inclinado passando óleo na corrente, principalmente se o tal pezinho estiver mal apoiado e o piso irregular.

Considerações finais

Para quem está procurando satisfação e uma pilotagem tranqüila, sem compromisso com performances alucinantes, com qualidade de acabamento beirando o ótimo, a Boulevard poderá ser uma boa opção, além do fato de que existe uma rede enorme de concessionárias Suzuki espalhada por todo o território nacional, e isso deve ser levado em consideração na hora da compra.

Eu pensei nisso e sei também que  vou levar um bom tempo para tentar entender essa máquina, mas na verdade foi assim com todas as motos que já pilotei e essa Suzy será, portanto, a minha nova companheira de estrada dia-a-dia e com certeza vai exigir uma dose de paciência extra, pois estou mais uma vez aprendendo a andar de moto.


Fonte:
Equipe MOTO.com.br
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